O Primeiro Curso Oficial da Insígnia de Madeira no Parque de Gilwell (Fatos Históricos)

Mais uma vez, reproduzimos o livro “Tradições Escoteiras — O Parque de Gilwell e a Insígnia de Madeira”, de Moacir Starosta, membro atuante da Patrulha Jaguatirica. Uma obra realmente de referência!


O primeiro curso de que nós, atualmente, chamamos de Curso da Insígnia de Madeira ocorreu no Parque de Gilwell, em 08 de setembro, uma segunda-feira até o dia 19 de setembro, uma sexta-feira, de 1919.

Ele teria simplesmente o nome de Curso Oficial de Treinamento de Escoteiros.

Ao término do curso, uma questão surgiu na mente de Baden-Powell, o fundador do escotismo.

Como deveria ser o distintivo especial concedido aos chefes que fossem aprovados no curso?

O Chefe Escoteiro então, disse: “Não permitiremos dar a eles um distintivo normal, daremos justamente um pedaço de madeira e uma tira de couro que chamaremos de ‘Insígnia de Madeira’”.

Eis algumas citações sobre o Parque de Gilwell e o Curso da Insígnia de Madeira:

A cerimônia de abertura do Campo Escola de Treinamento, Parque de Gilwell, teve lugar no sábado, 26 de julho de 1919.

O Parque de Gilwell foi doado pelo Senhor William Frederick Du Bois Maclaren, Comissário Distrital de Rosneath, Umbartonshire, para ser utilizado como Centro de Treinamento de Chefes Escoteiros e local para acampamentos de escoteiros.

O Chefe Escoteiro agradeceu o senhor Maclaren por sua generosa doação, presenteando-o com a Ordem do “Lobo de Prata” que era a mais alta condecoração da Associação Escoteira Britânica na época, por conseguinte, do Movimento Escoteiro Mundial.

(Headquarters Gazette, August 1919.)

O primeiro curso (Insígnia de Madeira) realizado no Campo Escola de Treinamento…

Obteve uma grande representatividade, com vinte Chefes Escoteiros vindos de todas as partes da Inglaterra e País de Gales, possuindo uma variedade grande de idades e profissões.

Francis Gidney, Chefe de Campo, Outubro de 1919

 A Cerimônia de Abertura do Parque de Gilwell teve lugar em 26 de Julho de 1919, com um tempo perfeito. A Senhora Maclaren cortou uma fita verde e amarela, as quais eram as cores do Escotismo naquela época. Este fato marcou a muitos, por ser inédito cortar uma fita em sinal de inauguração de um local.

O segundo curso da Insígnia de Madeira foi realizado por quatro fins de semana, em Gilwell durante os meses de abril e maio de 1920.

O terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo cursos foram realizados posteriormente, nos finais de semana, durante o ano de 1920.

Em 1921, a duração dos cursos foi revisada para dez dias seguidos, começando em uma segunda-feira e sendo concluído em uma quarta-feira.

Em 1919, depois do primeiro curso, o sistema de progressão foi anunciado: Uma conta pendurada na casa do botão para quem obtivesse aprovação na parte teórica e prática (Parte I e II); uma conta no cordel do chapéu e, um diploma para quem obtivesse aprovação na parte teórica e prática e, 18 meses de resultados práticos (Partes I, II e III); duas contas no cordel do chapéu e o diploma para quem fosse aprovado com especial qualificação para ser um Chefe de Campo – somente para cursos realizados no Parque de Gilwell. (Headquarters Gazette, Novembro de 1921.)

Eis os estudos feitos pelo próprio criador da Insígnia de Madeira e seus respectivos usos.

Utilização na casa do botão da camisa escoteira
Utilização na aba do chapéu escoteiro
Utilizado ao redor do pescoço e modelo utilizado até os dias de hoje
Utilizado pelos chefes de lobinhos, Akelas

Em maio de 1919, o capitão Francis Gidney foi escolhido como Chefe de Campo.

Em junho, o mesmo publicou um pequeno artigo no Headquartes Gazette sobre Gilwell:

“Gilwell será ‘O Centro de Treinamento Oficial’, onde os Chefes Escoteiros e, todos os que quiserem se tornar um Chefe Escoteiro farão seu treinamento com competentes e experientes Chefes Escoteiros em sua formação e treinamento de tropas, práticas de trabalhos com madeiras e técnicas de campo, além do método escoteiro de uma forma geral”.

Richard Francis “John” Thurman – terceiro chefe de Campo do Parque de Gilwell (1943 –1969) disse:

John Thurman

“Talvez pareça um contra-senso dizer que o espírito de um homem permaneça depois que ele tenha desaparecido. Porém, no caso de B-P e a forma que ele influiu em Gilwell, constitui-se em uma grande verdade. É o espírito da alegria, da tolerância e da camaradagem, de reflexão, de preparação e generosidade que se esboçou em seu livro Escotismo para Rapazes (Aids to Scouting) e que, através dos anos, tem se espalhado de Gilwell para o mundo. Portanto, o lugar trata de manter vivo o espírito do melhor dos ensinamentos de B-P, que se manterá vivo não por sentimentalismo, mas sim, porque é uma mensagem eterna e, todo mundo atual necessita da medicina que ele nos forneceu de forma tão generosa.”

O Primeiro Curso da Insígnia de Madeira – Um Pouco da História

Francis “Skipper” Gidney, o Chefe de Campo, era um jovem que serviu o exército como capitão durante a primeira Grande Guerra e tinha uma força vital enorme, sendo considerada uma pessoa muito importante na visão de Baden-Powell, com um “tremendo espírito”, sendo que seu Assistente de Campo era o capitão F. S. Morgan, Comissário do Distrito de Swansea.

Baden-Powell visitou o campo na sexta-feira à noite, dia 12 e no sábado, dia 13, juntamente com o Capitão A. G. Wade, seu Secretário Assistente na Associação Escoteira (a esposa do Capitão Wade – Mrs. Eileen K. Wade – foi a secretária particular de B-P por 27 anos, além de ser sua biógrafa oficial).

O Capitão Wade foi quem organizou o Primeiro Encontro de Escoteiros do Mundo em 1920, chamado de Jamboree Mundial em Olímpia, Inglaterra.

O fundador discorreu sobre o tema: como seguir pistas, no domingo pela manhã, com suas tradicionais anedotas. Outros distintos Chefes Escoteiros que proferiram algumas palestras como instrutores foram: o Comissário Deputado de Campo Coronel Ulick G.C. de Burgh, o Chefe Escoteiro Percy Witt Everett, Hubert S. Martin (mais tarde Diretor do Bureau Mundial), R.S. Wood (quem comandou Gilwell quando Gidney estava doente), P. B. Nevill, o reverendo R. Hyde e o Secretário Assistente do Quartel General Imperial D. F. Morgan.

Os alunos aproveitaram o bom tempo durante o curso, com exceção de um dia quando caiu uma forte tormenta que, Gidney descreveria: “também teve seu valor instrutivo”.

Abaixo está a foto oficial do curso, tradição esta que continua em Gilwell até os dias de hoje, as quais podem ser consultadas nos álbuns de fotos que estão na biblioteca de Gilwell.

Nesta abaixo, estão relacionados os participantes que foram divididos em três patrulhas, cada uma tendo o seu período como monitor, sub monitor, menos graduado e em todos os cargos da patrulha, incluindo a cozinha.

Apesar de em alguns esquemas de acampamento o almoço ser a principal refeição do dia, Gidney optou por ser o jantar, a fim de assegurar que ninguém perdesse alguma instrução quando estivesse cozinhando.

Alguns nomes, com o passar dos anos, podem ter sido perdidos, mas a maioria das fotos contém nomes, países e algumas vezes o “posto” que o mesmo ocupou, costume mantido até os dias de hoje nos cursos realizados no Parque de Gilwell.

Foto Oficial dos Alunos do Primeiro Curso da Insígnia de Madeira, acervo The Scout Association, UK

Alunos participantes do primeiro Curso de Gilwell:

Maj. Rev. C.P. Hines, Gt. Yarmouth;
C. Robson, Colchester;
L.J. Berlin, Manchester;
Rev. W.A. Butler, Sussex;
M.F. Bunt, Sussex;
J.R. Davies, Cheshire;
J.F. Wilkinson, Cheshire;
A.W. Todd, Cheshire;
E. Fay, Yorkshire;
J. Kent, Essex;
Ronald Firth, Suffolk;
R. Hammond, London;
C.C. Eiffe, London;
Rev. H.W. Nevill, London;
S. Phillips, London;
D. Earle, London;
Rev. W.E. Baker, London;
R. Lang, Cambridge;

Don Potter;

J. Durell.

Treinadores ou Instrutores:

Baden-Powell e Major Wade, presentes somente por dois dias do curso.

John “Skipper” Gidney como Chefe de Campo e Capitão Morgan como Assistente de Campo.

Como muitas das fotos dos primórdios do Escotismo, alguns aspectos geram perguntas.

Baden-Powell está sentado ao centro do grupo, com diversos integrantes com diversos uniformes de cores diferentes. Ladeando B-P está o Chefe de Campo “Skipper” Gidney e seu Assistente de Campo, o capitão Morgan à direita de B-P.

Supõe-se que o Capitão A. G. Wade, conjuntamente, com B-P, estiveram somente dois dias em campo, sendo que o Major A. G. Wade não aparece na foto.

A lista nomeia dezoito participantes, os quais foram identificados nesta foto, descobriu-se que o aluno que faltaria ser identificado na foto seria Leslie J. Berlin, bem como, outros dois alunos que seriam J. Durell e Don Potter.

Assim teríamos 20 alunos e quatro instrutores identificados, sendo que dois deles não estariam na foto, A. G. Wade e, um instrutor “misterioso”, que não foi possível ser identificado, citado nos relatórios do curso, o mesmo também não estaria na foto.

Segue abaixo o possível programa diário de como era desenvolvido o curso:

7:00 h. O som do corno de Kudoo atravessa o campo – alvorada.

9:30 h. O café da manhã é preparado e servido pelo cozinheiro e intendente de cada dia, sendo feita à inspeção.

Quebra-gelo, orações, jogos, trabalhos.

Almoço acelerado.

Horas restantes.

(Uma hora misteriosa que “Deve ser experimentada, para ser acreditada”, em Gilwell acredita-se que “O melhor lazer, é o trabalho”.

Um lema, em Gilwell, que é seguido até hoje.)

Sessão de trabalho

18:30 h. Final dos Trabalhos – trabalhos com pioneiria, preparação do jantar, distribuição das rações.

21:30 h. Fogo de Conselho – toda a patrulha e o monitor são responsáveis pelo Fogo de Conselho de forma rotativa.

Oração do final do dia. Palavra final do Chefe de Campo.

No último dia, além da inspeção final, o desmonte de campo, os participantes deveriam retirar seus lenços cinza, confeccionados com camisas velhas do exército inglês pelo próprio Baden-Powell, e trocá-los pelos seus lenços de tropa, bem como, o arriamento final das bandeiras e as orações finais.

Existem controvérsias quanto ao uso de lenços escoteiros, pois se acredita que nesta época muitos utilizavam gravatas, costume que foi abandonado, pois foi adotado o uso do lenço escoteiro que abordarei mais adiante.

A última refeição do curso da Insígnia de Madeira não foi preparada pelos participantes, mas foi oferecida em Londres, na sede escoteira, onde Everett os recebeu para um almoço festivo, costume utilizado até os dias de hoje, nos cursos em Gilwell Park.

Então, os participantes fizeram um passeio nos escritórios e finalmente tiveram uma conversa com o Chefe Escoteiro, B-P, que os encorajou a começarem um curso em sua vizinhança usando como guia do curso o livro Guia do Chefe Escoteiro (Aids to Scoutermastership).

Findo o curso, o Chefe Escoteiro os concedeu uma conta do colar original de Dinizulu para ser utilizada presa ao chapéu escoteiro, pendurada em uma correia de couro.

Muitas são as tradições escoteiras criadas por B-P para o Movimento Escoteiro, para que todos conheçam alguns aspectos sobre elas, durante o seguimento deste livro abordarei as mesmas sob aspectos históricos, especialmente, sobre os símbolos da Insígnia de Madeira.

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Moacyr com “y”

Dessa vez, iremos apresentar quem foi o Primeiro Monitor da Patrulha Jaguatirica, o Moacyr Mallemont Rebello Filho, que partiu para o Grande Acampamento em 8 de dezembro de 2007.

Essa pequena biografia foi extraída de uma correspondência eletrônica de sua autoria, apresentado seu currículo numa solicitação para ele entrar em mais uma comunidade escoteira. Na época, ele administrava seu site “Fogo de Conselho”, que hoje não está mais no ar.

Antes, porém, para os membros mais novos do Movimento Escoteiro, vale a pena dar algumas explicações adicionais. Afinal, essa é uma das missões que a Patrulha herdou do nosso principal fundador. Mais informações podem ser extraídas no site https://www.efemeridesescoteiras.com.br/search?q=mallemont.

— Segunda Classe e Primeira Classe: antes das denominações Pista, Trilha, Rumo e Travessia, as conquistas dos Escoteiros eram Noviço, na sua Promessa, Segunda e Primeira Classes. Em alguns países, como nos Estados Unidos, esses títulos permanecem.

— Escoteiro da Pátria: na época, não havia a Lis de Ouro. O Ramo Sênior dava os primeiros passos e não havia um grau semelhante exclusivamente para os Escoteiros.

— Numeração para Escoteiros da Pátria, Condecorações e Cursos: poucas Regiões numeram tais conquistas. Entretanto, o livro “A União”, do jaguatirica Antônio Boulanger Uchoa Ribeiro, traz relações que podem permitir seu retorno ou aplicação. Pelo livro, nossa personagem tem o nível de Escoteiro da Pátria nº 70, enquanto no texto original traz o número 42. Boulanger ressalta que tal diferença se deve possivelmente a uma das várias recontagens das numerações.

— Região da Guanabara: antigamente, o Distrito Federal era a Cidade do Rio de Janeiro. Após se transferir para Brasília, o antigo DF foi denominado Estado da Guanabara, e as Regiões Escoteiras abrangiam exclusivamente os estados da Federação. Mais tarde, se realizou a fusão entre Guanabara e Rio de Janeiro e, consequentemente, a junção das duas regiões Escoteiras, ficando sua sede, por força estatutária, instalada na cidade do Rio de Janeiro, e a sede da Região do antigo Estado do Rio de Janeiro passou a ser a sede do Distrito Escoteiro o qual Niterói, a antiga capital, fazia parte.

— ADCC: o Assistente de Deputado Chefe de Campo era o que conhecemos hoje como “Portador de Três Contas” da Insígnia de Madeira. O DCC era o portador das quatro contas. A palavra “deputado” significa “adjunto”, e os Deputados Chefe de Campo representavam, nos Cursos Escoteiros, o Escoteiro-Chefe Nacional, um posto não mais existente.

— Insígnia da Madeira: o nome certo é Insígnia de Madeira. Porém, a expressão “da Madeira” foi bastante usual até em passado recente. O Curso de Insígnia de Madeira hoje é chamado de Curso Avançado.

— Curso de Insígnia de Madeira para Chefe de Escoteiros Seniores nº 1 — foi o primeiro de todos os Cursos, dirigido por Luiz Paulo Carneiro Maia.

— Paredão Baden-Powell: apesar do ineditismo do nome, existem no mundo duas montanhas como o nome do idealizador do Movimento Escoteiro. Uma nos Estados Unidos e outra na cordilheira do Himalaia, sendo que lá, além do Monte Everest, forma o conjunto das duas únicas denominações geográficas com nomes de personalidades estrangeiras.

— 1º Ajuri Nacional: comemorando o centenário do Fundador e o cinquentenário do acampamento na Ilha de Brownsea, esse evento foi eternizado por um belo hino de autoria de João Ribeiro dos Santos.

— 1º Jamboree Panamericano: sim, foi no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro.

Ele era filho de Moacyr Mallemont Rebello e de Edith Fontes Rebello. Nasceu no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, em 25 de julho de 1941. Apesar do bairro natal, ele era torcedor fanático pelo Fluminense.

Moacyr se ingressou no Movimento Escoteiro em 31 de julho de 1955, na então 2a Associação de Escoteiros Católicos de São João Batista da Lagoa, no bairro de Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro, naquela época Distrito Federal. Esse Grupo ainda existe e é um dos mais antigos do Brasil, com a mesma denominação e mantendo o numeral 2º RJ.

Fez a sua Promessa Escoteira em 25 de setembro de 1955, se tornou Escoteiro 2ª Classe em 6 de janeiro de 1956. No ano seguinte, conquistou a 1ª Classe em 10 de fevereiro e, em 1958, em 30 de abril, veio a se tornar Escoteiro da Pátria nº 42. No mesmo ano, se tornou Assistente da Alcateia do seu Grupo, como Baloo, e em 1961 tornou-se Administrador da Editora Escoteira da União dos Escoteiros do Brasil e Comissário do 1º Distrito Escoteiro da antiga Região da Guanabara. Esse Distrito abrangia a Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro.

Em 1965, foi nomeado Chefe do 131º RJ Cinco de Julho, em Copacabana, na mesma cidade, e entre 1968 e 1969 foi Comissário Executivo Regional na Região da Guanabara, quando foi adquirido o Campo-Escola Escoteiro de Magé, o atual Campo-Escola Geraldo Hugo Nunes, onde foi Diretor do primeiro Curso lá realizado: um Preliminar para Chefes Escoteiros.

Ainda, na sua gestão, ocorreu em 1969 a primeira Aventura Sênior Nacional em Itatiaia e o 1º Encontro Musical Escoteiro, destinado aos jovens compositores Escoteiros e Bandeirantes. E nessa época, foi estruturado o Plano Regional de Adestramento da Região da Guanabara, tendo sido realizado 56 Cursos Escoteiros, como o de “Fogo de Conselho” e “Comissão Executiva de Grupos”, até então inéditos no Brasil.

Moacyr Mallemont ainda foi membro da Equipe Nacional de Adestramento, como ADCC — Assistente de Deputado Chefe de Campo — a partir de 10 de janeiro de 1968, tendo colaborado em várias Equipes Regionais com vários Deputados Chefe de Campo como Lino Schiefferdecker no Rio Grande do Sul, Eugène Emil Pfister em São Paulo, Francisco Floriano de Paula, em Minas Gerais, e João Ribeiro dos Santos no Rio de Janeiro.

Para conseguir tamanha capacitação, ele participou como aluno de vários Cursos da Insígnia de Madeira. Fez, simultaneamente, os para Chefes de Escoteiros nº 33 e para Chefe de Escoteiros Seniores nº 1 em 8 de agosto de 1962, e o para Chefes de Lobinhos nº 78 em 15 de maio de 1970. Entre 20 e 28 de agosto de 1966, foi aluno do Curso da Insígnia da Madeira para Chefes Escoteiros nº 329, em Gilwell Park, na Inglaterra e, no mesmo lugar, participou do TTC — Training the Team Couse — nº 11, aqui no Brasil conhecido como “Adestrando a Equipe”. Nos Estados Unidos, em Nova Jersey, entre 14 e 19 de maio de 1968, foi aluno do Curso Executivo para Dirigentes Escoteiros nº 73, realizado no Schiff Scout Reservation.

Como representante do Brasil, fez parte da 4ª Conferência Mundial Escoteira na Inglaterra, entre 5 e 10 de setembro de 1966, na Inglaterra, patrocinada pelo World Scout Bureau.

Moacyr Mallemont foi ainda um hábil montanhista. Em 1963, ele foi o guia da conquista de uma face do Morro dos Dois Irmãos na Gávea na cidade do Rio de Janeiro, pelo Clube Excursionista Rio de Janeiro (CERJ), e essa parte recebeu o nome de “Paredão Baden-Powell”, sendo a única via de acesso, no mundo inteiro, que homenageia o Fundador do Movimento Escoteiro. A escalada de 350 metros de extensão foi realizada em 11 de dezembro de 1960 e o trecho conquistado está atualmente classificado como D2 4° IVsup C E3, para os entendidos. Os detalhes dessa aventura podem ser conferidos em http://www.escaladas.com.br e em http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=089842_07&pagfis=17679&url=http://memoria.bn.br/docreader#.

Seu trabalho recebeu alguns reconhecimentos. Em 26 de abril de 1963, recebeu a Medalha de Bons Serviços Grau Bronze nº 466 e, 25 de outubro do mesmo ano, o Diploma de Mérito Nacional nº 63. No ano seguinte, em 13 de maio, ganhou a Medalha de Gratidão Grau Bronze nº 58 e, em 9 de abril de 1968, foi agraciado com a Cruz de São Jorge nº 663.

Participou de vários eventos Nacionais e Internacionais, tais como o 1º Ajuri Nacional em Tubiacanga, na Ilha do Governador, na cidade do Rio de Janeiro, em 1957. No mesmo ano, ele ainda esteve no Jamboree do Jubileu na Inglaterra.

Em 1960, na Vila Valqueire, em Jacarepaguá, também no Rio de Janeiro, fez parte do Acampamento Internacional de Patrulhas e, em 1965, celebrando o 4º Centenário da mesma cidade, do 1º Jamboree Panamericano. Um ano depois, ele estaria fazendo parte de uma Reunião de Gilwell, no mês de agosto, no Gilwell Park. Isso tudo, além das diversas assembleias Nacionais e Regionais do Estado do Rio de Janeiro, em que ele se fez presente.

Os últimos dias da sua vida foi na cidade de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, motivando os membros da Patrulha Jaguatirica no seu trabalho.

Agradecemos, para esse texto, as valiosas contribuições dos felinos Antônio Boulanger Uchoa Ribeiro, Carmen Barreira, Celso Correia Neves e Maurício Roth Volksweis.

O USO CULTURAL DAS CONTAS NOS TEMPOS ANCESTRAIS ATÉ OS TEMPOS MODERNOS

Voltamos aqui a reproduzir o excelente livro “Tradições Escoteiras — O Parque de Gilwell e a Insígnia de Madeira”, de Moacir Starosta, membro atuante da Patrulha Jaguatirica.

Recomendamos enfaticamente a leitura do livro inteiro, onde estão presentes todas as referências de suas pesquisas. No presente instante, apresentaremos mais um capítulo.


Para escrever um pouco sobre esta tradição zulu, relatarei em breves palavras um pouco sobre a origem do povo zulu que mantém, de certa forma esta bela tradição até os dias atuais.

O povo zulu, “povo do céu” em dialeto de tribos africanas, remonta a fundação do reino do Congo em 1240 de nossa era atual. Os povos africanos realizavam constantes migrações em busca de novas terras, motivados pelas constantes disputas de seus herdeiros por novas e mais amplas extensões de terra.

Malandela KaLuzumana, um dos herdeiros diretos de Mnguni, desposou Nozinja de Gabeni, uma das herdeiras do reino do Congo (seu sobrenome teria mudado para Zungu), sendo que Nozinja teria tido quatro filhos: Qwabe, Gazu, Mgcineka e Zulu.

Nozinja de Gabeni

Quando Malandela morreu seu reino foi disputado pelos filhos Zulu e Qwabe. Cada um dos dois seguiu rumos diferentes, sendo que, Zulu permaneceu nas terras de seu pai. Assim, gerações originárias da mesma linhagem de sangue se sucederam e, por diversas ocasiões, se dividiram, quer por disputas entre seus sucessores, quer pelo não nascimento de homens em algumas gerações. Até que, em 1818, ocorreu um fato que marcou a história do povo Zulu até os dias de hoje.

Ocorreu uma época de conflitos chamada Mfecane. Diversos conflitos ocorreram até a unificação dos povos que haviam se mudado e retornaram a fazer parte desta grande nação que iria se formar, quer por conquista de diversos outros clãs, ou por sua união, sendo chamados então de Zulus.

Dentre as muitas tradições do povo zulu está o uso de colares de contas de madeira de diversas formas e cores, com seus mais diversos significados.

Aqui, gostaria de fazer um comentário muito pertinente.

A afirmação de que existiu somente um ou dois colares como os utilizados pelo rei Dinizulu não se constituí em uma verdade. De certa forma, talvez seja uma falha nas traduções de alguns documentos para a língua portuguesa, como veremos a seguir nos fatos históricos. A ideia de que se tem, é de que existiram somente um ou dois colares de contas de madeira utilizados por Dinizulu, mas existiram e existem muitos colares de contas de madeiras idênticas às utilizadas por Dinizulu e por outros líderes zulus.

Existem relatos históricos que o rei Dinizulu presenteou algumas pessoas com seus colares. Por exemplo, uma pessoa muito importante em sua vida, pois o ajudou quando de seu julgamento por traição à coroa britânica e por assassinato, foi a Sra. Harriet Colenso.

Agnes Colenso, sobrinha da Sr.ª Harriet, com um pequeno colar com contas iguais às de Dinizulu, possivelmente presenteadas pelo mesmo à Sr.ª Harriet Colenso.

Até os dias de hoje, modelos em escala menor são utilizadas por místicos e teólogos na região originária dos fatos, províncias de KwaZulu, estado de Natal, na África do Sul, terra que os descendentes do povo zulu habitam.

Muitos escoteiros estão familiarizados com as contas da Insígnia de Madeira e, muitos sabem que B-P teria capturado o colar original do Rei Dinizulu como espólio de guerra.

Os africanos gostam muito de vestir adornos, até os dias de hoje, bem como, muitos de seus pretensos colonizadores ingleses, por exemplo, se utilizavam desta tradição ou adorno, mas o Rei não utilizava este colar como tradição ou adorno.

Culturalmente, as contas são chamadas “Iziqu” pelos Zulus, conta de madeira. No plural, “Izique”, contas de madeira, sendo os colares feitos de contas de madeira intercaladas presenteados aos guerreiros pelo rei.

Quanto à sua etimologia, o significado é de distinção de honra, diploma ou vitória, também tendo o significado “do colar zulu da coragem”. E são, ainda nos dias de hoje, usualmente enfiadas em um pedaço de corda feita de fibras vegetais ou em uma correia de couro sendo, chamado de “mnyezane”.

Existem alguns colares em museus. Um exemplo, é o colar que se encontra no museu de Natal, África do Sul. Os colares reais eram chamados de “Izazonco”.

Mnyezane, museu da Universidade de Natal, Durban, África do Sul, bem como Dinizulu com seu colar

As contas são utilizadas ao redor de todo o corpo. De acordo com suas funções especiais, seria uma espécie de “medicina profilática” contra o mau olhado, proteção nas batalhas, contra a morte e em cerimônias de purificação.

Em casos de bebês, “Iziqu” é usualmente utilizada em torno da cintura e do pescoço. Quando utilizada em torno da cintura, eles acreditam que o corpo do bebê será robusto e que ele ou ela virão a crescer com um corpo forte e sadio. Quando utilizadas em torno do pescoço ou pulso, a criança escapará de ter qualquer epidemia ou doenças infecciosas, o que é predominante no país ou em qualquer região onde o povo seja nômade.

No caso de adultos, quando as contas são utilizadas em torno de seus pulsos, o possuidor deseja que os músculos de seus braços se tornem fortalecidos ou, se ele tiver dor em seus braços, a dor diminuirá. Uma tribo perto de Biera, na África Portuguesa Oriental, chamada de Acikunda, tinha uma grande crença nas contas de madeira. Eles a utilizavam ao redor dos pulsos, conjuntamente com outras contas brancas. Eles diziam que se caminhassem pelas florestas do país e estivessem em perigo de vida por parte de animais selvagens, eles sacudiam seus colares e um leão manso viria e os escoltaria em sua caminhada em segurança.

Alguns africanos vestem suas contas quando devem comparecer perante um tribunal, esperando vencer suas causas por causa disto. O próprio Dinizulu os utilizava. Em um de seus julgamentos, ele os teria utilizado como demonstramos em fotos neste livro.

Em Abril de 1947, na revista Jamboree, G. F. McIntyre, da Rodésia Meridional diria:

“Eu começei a acreditar que o Rei Dinizulu utilizava seu colar por uma razão muito especial.

Eu estava conversando num dia destes, com um descendente da Casa Real de Kumalo, sobre Lobengula  que seria um destes membros.

Lobengula seria Rei dos Matabeles e tinha relação com Dinizulu.

Eu também aprendi que ele utilizava um colar de contas semelhantes às da Insígnia de Madeira, então seria seguro deduzir que Dinizulu utilizava seu colar com a mesma razão do que o Rei Lobengula, ou seja,  como uma espécie de coroa real.

O colar seria chamado de “Isazonco do Rei”, e somente o Rei teria permissão para utilizá-lo. Então, as pessoas sabiam que ele seria o Rei e, o respeitavam como tal e, quando ele visitasse outros reinos, ele também seria reconhecido como um grande Rei e temido como tal.

Então, o colar representaria seu poder e seria o emblema de sua posição social.

Também o colar seria reconhecido como possuidor de um grande poder medicinal daria força, autoridade e sabedoria a quem o utilizasse, sendo uma grande honra a quem o possuísse e, crença e devoção ao seu conselho.”

Então, ao vermos as contas da Insígnia de Madeira, ou melhor, as contas do Rei Dinizulu, não é incorreto escrever — elas ainda adornam líderes de uma certa forma.

Isandlwana é uma planície isolada no estado de KwaZulu-Natal, na África do Sul, onde ocorreu uma batalha entre os britânicos e guerreiros zulus em janeiro de 1879, como parte da grande guerra Anglo-Zulu. Em lembrança a este evento libertário do povo zulu da subjugação e segregacionismo durante séculos, existe um monumento onde são utilizados imitações das contas de madeiras utilizadas pelo povo zulu em seus colares místicos, chamados Mnyezane.

Fotos de Dinizulu

Geraldo Hugo Nunes

Apresentamos, abaixo, uma breve biografia de Geraldo Hugo Nunes, de autoria de Moacyr Mallemont.

Geraldo Hugo Nunes dá hoje o nome do Campo-Escola da Região Escoteira Rio de Janeiro, onde o próprio Moacyr Mallemont estreou como Diretor de Curso.

Falamos da época da antiga Região Escoteira da Guanabara, então desvinculada da Região do Rio de Janeiro, uma vez que, na época, existiam os dois estados separados. E antes de Brasília se tornar a Capital do Brasil, a Guanabara é que era o então Distrito Federal.

Boa Leitura a todos!

Ricardo Coelho dos Santos

Escriba da Patrulha Jaguatirica — cadeira nº 6 — patrono André Pereira Leite


Diante de dezenas de escoteiros da Região da Guanabara, o presidente Ivan Rodrigues de Farias assinalou: “Hoje, a galeria daqueles que deram suas vidas pelo escotismo foi enriquecida com o nome de Geraldo Hugo Nunes. Perdemos a convivência do grande chefe e amigo, mas seu exemplo em 50 anos de relevantes e dedicados serviços à nossa juventude e nossa Pátria será para nós um estímulo para prosseguirmos na luta pelos nossos ideais. A dor que todos nós sentimos só é suportada pela lembrança de uma vida ímpar, plena de conquistas e realizações”.

Era o dia 10 de julho de 1974. Morto na véspera, vítima de enfarte, aos 63 anos baixava para o último repouso o corpo de um homem que dera sua vida ao escotismo.

Nascido a 1º de maio de 1913, Geraldo Hugo Nunes, o “Geraldão”, ingressou no escotismo em 29 de setembro de 1924 na Associação de Escoteiros Católicos Nossa Senhora do Amparo, da Federação dos Escoteiros Católicos do Brasil. Feita sua promessa, permaneceu em atividade até que em 1936 foi convidado a dirigir a Associação de Escoteiros Católicos São Pedro de Cascadura, hoje 3º Grupo Escoteiro Católico São Pedro de Cascadura, permanecendo na direção até dia de seu falecimento, 38 anos depois.

Em 1942, foi tesoureiro da Federação Carioca de Escoteiros e logo em seguida Presidente do Conselho Metropolitano dos Escoteiros Católicos. Ao mesmo tempo em que chefiava o 3º GE, foi também Comissário de Lobinhos da Federação Carioca de Escotismo, Comissário de Escoteiros da Região do Distrito Federal, hoje cidade do Rio de Janeiro, chefe de Campo do Ajuri do Cinquentenário, chefe de campo do Acampamento Internacional de Patrulhas e, em 1971, chefiou os escoteiros da Região da Guanabara, como Comissário Regional. Permaneceu nesta função até o dia de sua morte.

Em reconhecimento por seus serviços prestados ao Escotismo, recebeu as medalhas de Mérito, Bons Serviços Ouro, Cruz de São Jorge, Medalha Tiradentes e por fim, em abril de 1962, a mais alta condecoração concedida pelo Escotismo no Brasil: O Tapir de Prata.

Na área de formação, dirigiu vários cursos, tendo participado ainda como aluno, membro da Patrulha dos Pombos, no primeiro curso da Insígnia de Madeira do Brasil, realizado em São Paulo em 1949. Complementou sua formação com os cursos de Pioneiros, Comissário Distrital e Chefe de Grupo.

Preparando-se para transmitir seus conhecimentos fez o curso “Adestrando a Equipe”, sendo nomeado Assistente de Deputado Chefe de Campo (Diretor de Curso Básico) em agosto de 1961 e, finalmente, Diretor de Curso de Insígnia de Madeira. Nessa condição, participou como diretor ou membro da equipe de diversos cursos no Rio de Janeiro e em outras Regiões.

Sua morte no exercício da função de Comissário Regional causou grande comoção. Ao final de seu enterro, exclamou o Presidente da Região da Guanabara: “Escoteiros, em saudação! Olhai firme á frente e contemplem o Vulto que se agiganta, do escoteiro que aqui homenageamos. Nas noites em volta do fogo, contem àqueles que ainda não o sabem, que vocês conheceram um GRANDE CHEFE!”

Encerrava-se assim a vida de Geraldo Hugo Nunes, coberto de honrarias e diante de grande contingente de lobinhos, escoteiros de Terra, Mar e Ar, além de chefes, dirigentes, bandeirantes e demais amigos. Pouco tempo depois o Campo Escola da Região do Rio de Janeiro recebeu seu nome, perpetuando-se, dessa forma, a memória de um Grande Chefe.

Panchito

O texto de hoje foi retirado das memórias do nosso inesquecível fundador e monitor inicial, Moacyr Mallemont, numa das suas aventuras escoteiras internacionais.

Essa narrativa é de um fato ocorrido acerca de 65 anos atrás!

Boa Leitura!

Ricardo Coelho dos Santos

Escriba da Patrulha Jaguatirica — cadeira nº 6 — patrono André Pereira Leite


Para participarem do Jamboree de Sutton Park, em 1957, na Inglaterra, Dr. João Ribeiro dos Santos, denominado de “o Bravo”, Walter Quintão e Moacyr Mallemont, fundador da Patrulha Jaguatirica, partiram do Rio de Janeiro em um navio com escalas em Las Palmas, na Ilha de Gran Canarias, a capital do arquipélago, em Lisboa e na cidade de Vigo, na Espanha.

A escala nessa última cidade portuária seria de poucas horas, e não daria tempo para eles irem a Santiago de Compostela como desejavam, pois distava cerca de 70 km ao norte.

Mas, mesmo assim, optaram para conhecer o local; queriam saber porque Vigo era o maior porto pesqueiro da Europa. Então, alugaram um táxi para um passeio pela cidade. Pediram ao motorista para que os levasse aos lugares mais interessantes, e, assim, deram uma volta pelos pontos principais: a praça, a igreja, e assim por diante.

Num certo ponto, o motorista perguntou se eles não gostariam de ver tudo do alto. Acertaram o preço da corrida e foram por uma estrada sinuosa de terra até uma localidade em que se descortinava uma visão magnífica da cidade e do porto.

Depois de alguns minutos apreciando a paisagem, um jovem se aproximou deles. Parecia estar curioso com os uniformes que ostentavam orgulhosos, com o distintivo do “BRASIL”, em verde com letras amarelas acima do bolso direito da camisa e das japonas. Dr. João lhe ofereceu uma bala, e ele relutou um pouco a aceitar. Tinha uns doze anos e se vestia com simplicidade. Sapatos, meias e paletó escuros com camisa verde, também escura. Não sorriu.

Foi quando ele puxou a aba da lapela esquerda do paletó e mostrou um distintivo escoteiro, fazendo com o dedo da outra mão sinal de silêncio.

Dr. João desviou imediatamente a atenção dos companheiros para apontar em direção oposta a que estava o jovem e falou entre os dentes para que o motorista não ouvisse:

— Disfarcem. Depois eu lhes conto.

Quando eles voltaram, o jovem já estava descendo o promontório em se encontravam. Dentro do táxi, conversaram sobre amenidades. Mais tarde, no navio, depois de um almoço ligeiro num restaurante simples, Walter e Moacyr perguntaram uníssonos ao Dr. João, o que o jovem queria dizer.

— Aquele jovem faz parte do Movimento Escoteiro clandestino na Espanha. Aqui é uma ditadura governada à mão de ferro pelo General Francisco Franco. Aquele jovem correria perigo, se alguém o delatasse!

Moacyr Mallemont guardou a imagem do “Panchito” na memória até o fim da vida.

O Exemplo

Apresentamos aos leitores do blog da Patrulha Jaguatirica um texto do famoso jornalista e cronista João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, membro da Academia Brasileira de Letras, conhecido como João do Rio (Rio de Janeiro, RJ — 05/08/1881 — Rio de Janeiro, RJ, 23/06/1921).

Com certeza, os senhores irão se deliciar com o texto historicamente rebuscado, tão comum na época que lhe deu a merecida fama, como vão vislumbrar o ufanismo e as ações dos escoteiros paulistas, quando nem seu nome em português era conhecido do público e a Associação Brasileira de Escoteiros tinha somente dois anos de funcionamento.

O presente texto foi nos presenteado pelo Jaguatirica Altamiro Vilhena. Originariamente foi publicado no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro, então Capital Federal, em 09/09/1916.

Boa leitura a todos!


— Ser do seu país, se não é instinto, que profissão pode ser? Não se é filho nem irmão profissionalmente. A gente é da sua terra, como do seu sangue…

Estas palavras de um pensador ardente, eu as vejo simples no olhar dos homens que passam na rua. Estado de migrações várias, Estado onde se conseguiu adaptar o colono com garantias como em nenhuma outra parte da Federação, o elemento nacional, a inteligência plasmadora do seu povo é tão forte — que cada vez mais ele é o coração do Brasil. Os grandes dias de festa nacional, eu os passo sempre em São Paulo. Impele-me tudo quanto possa ter de nobre o desejo de sentir os sentimentos admiráveis. Nada mais triste que a comemoração de uma data nacional com as ruas desertas, um aspecto de domingo em repartição pública pairando sobre a cidade. São Paulo faz sempre o contrário, naturalmente, sem excessos. Basta sair, dar alguns passos, compreende-se a harmonia dos sentimentos. A glorificação da data é um dever aceito com fervor pelo governo e pelo povo. Em França não há ninguém que não seja francês a quatorze de julho. Em São Paulo, não há estrangeiro que não sinta a segunda pátria, a atmosfera de entusiasmo. Hoje, dia 7 de setembro, mais do que nunca, eu penso no instinto da pátria e naquela frase de José Bonifácio, que desejava a pátria uma “peça inteiriça”.

Foi aliás desde cedo e até à noite uma extraordinária lição de civismo, como inspirada no gênio tutelar do Andrada, uma lição em que o povo e governo eram professores a incitar a certeza das crianças e da juventude. Todas as escolas dos bairros, todas as escolas do vasto Estado, em todas as cidades, comemoravam a independência. Eu fui à Escola Normal, onde se dá ensino a mais de três mil pessoas. E nesse palácio da educação, as sensações de carinho e de inteligência fundiam-se num profundo e nobre sentimento de beleza moral. Estavam todos os professores, essas grandes dedicações modestas, formadoras, da alma jovem. Estava o secretário do Interior, o sr. Oscar Rodrigues Alves, professor, cujo esforço rútilo se volta inteiramente para o incremento da grande obra de ensino; estava o secretário da Justiça, sr. Eloy Chaves, impetuosa força de vida ativa que tornou definitiva e modelar na América a polícia de São Paulo, e que já foi secretário do Interior. Estava o sr. Cândido Motta, exemplo do self made man secretário da Agricultura e professor. Chegara a pé, discretamente o presidente sr. Altino Arantes, que deixara a secretaria do Interior para dirigir com a sua luminosa inteligência os destinos de São Paulo. Era assim a festa, com todos os fatores da formação daquela juventude. Presidente, secretários, professores percorreram todas as salas, desde o jardim da infância até o grande salão das solenidades dos normalistas. E desde as criancinhas de quatro a seis anos que recitam e conversam e marcham contentes, querubins de Murillo descidos do céu, desde os petizes das escolas anexas que fazem discursos e mostram uma disciplina encantadora, até às senhorinhas que vão ser amanhã professoras e aos rapazes que se preparam para o alto dever de ensinar, admirei não só o flagrante da beleza física das gerações em preparo, não só o sentimento de livre disciplinamento, em que cada um ocupa o seu lugar consciente do seu lugar, como principalmente a coesão moral para a transformação do mesmo ideal em realidade. Não há discursos de professores, não há nenhuma dessas manifestações de incontinência verbal tão próprios do continente. Mas todos sabem que estão ali reforçando, preparando, continuando uma Vontade — aquela milagrosa vontade paulista, de que José Bonifácio foi um dos símbolos mentais. Os rapazes, as meninas falam com o olhar. Cada um parece dizer: — Tenho de ser assim, nós queremos…

Por isso, os rapazes e os meninos, as raparigas e as criancinhas mostram o mesmo alegre sorriso de segurança, o mesmo ardor contido. É como se estivéssemos em certas escolas da Suíça, no pátio, onde os pequenos cantam ou fazem evoluções; é como se estivéssemos em certas universidades inglesas ou em escolas alemãs, diante da verdadeira festa literário-musical dos normalistas em que o maestro João Gomes mostrou um orfeônico de trezentas vozes, só comparável a alguns de Munique, pela beleza da expressão.

Apenas, festa de civismo, dia da independência, os pequenotes do jardim da infância brincavam, aprendendo, em torno do motivo Pátria, as crianças dos outros cursos cantavam os hinos pátrios, os normalistas repetiam esses hinos e recitavam versos em torno do mesmo assunto. E, por todos os lados, nas paredes, nas colunas, nos galhardetes, retratos de José Bonifácio eram como as marcas inumeráveis do espírito que ali os reunia a todos.

Quando o presidente e os secretários saíam, as crianças, os rapazes atiraram-lhes braçadas de flores. O presidente estava comovidíssimo e sorria. Os secretários tinham na fisionomia a satisfação. Era a certeza de que São Paulo de amanhã continuará com o mesmo sentimento, com o mesmo divino instinto de querer a sua Pátria igual ás maiores. Ao mesmo tempo em não sei em quantas mil escolas do território paulista a mesma festa se realizava e os mesmos hinos patrióticos subiam no ar…

Depois da comemoração escolar seria impossível pensar senão na festa da independência. O presidente saía da Escola Normal para assistir, na avenida Paulista, diante dos bustos de Tiradentes, Pedro I e José Bonifácio, o desfilar das escolas, das linhas de tiro, dos boys-scouts. Muito habilmente, governo e povo faziam o dia inteiro de devoção das crianças e da juventude.

Antes de qualquer outro Estado, São Paulo compreendeu a necessidade das linhas de tiro, que o governo passado fez parecer com receios infundados.

Antes de qualquer outro Estado, o povo prezou a ideia do scoutismo, traduzida pelo sr. Mario Cardim , da Inglaterra, onde, graças a esse preparo, lord Kitchner pôde organizar quase de repente um exército eficiente de alguns milhões de homens. E o governo de São Paulo acolheu, ajudou o scoutismo — escola de patriotismo. Assim, o dia do grito da independência, era São Paulo inteira a incentivar o garbo da juventude.

A multidão enchia a avenida — multidão onde não se vê um homem descalço e sem gravata. Quando o presidente e os secretários chegaram ao belvedere, o hino nacional explodiu junto ao palanque, ecoou para a direita, para a esquerda, espalhou-se num clangor confuso por toda a perspectiva. Depois, de repente, um súbito silencio, uma corneta vibrou aguda e, como elevado na chama dos aplausos, ascendeu ao topo do mastro, que guardava os bustos dos fatores da independência, o pavilhão nacional.

Então, após a palavra do sr. Pedro Prado, começou a desfilar. Eram as linhas de tiro de Santos e de São Paulo, os rifles floridos, ao som impetuoso das marchas de guerra francesas; eram as escolas, os colégios que, a cantar cantos heroicos, atiravam rosas aos bustos, eram as escolas reunidas no 7 de setembro; foi a fulgurante passagem dos estudantes do Colégio Salesiano, sob as palmas da multidão; foi a aproximação, a chegada, a passagem dos boys-scouts, cujo número pode ascender dentro de um ano a cem mil. No alto dos topes as bandeiras cor de ouro e cor de esperança drapejavam no ar o céu do cruzeiro do sul. No belvedere, todos os representantes do governo. E entre as palmas da multidão, na avenida, num clangor de cantos patrióticos e de hinos, a mocidade, o futuro num ímpeto fervoroso que se fazia disciplina galharda, diante dos três bustos.

No clamor imenso, eu olhava os três bustos. Tiradentes, D. Pedro, José Bonifácio, três expressões das tendências do Brasil e uma só indicando o coordenador da nacionalidade: São Paulo. Certo, Tiradentes morrera no patíbulo, vítima de um sonho de poetas. Mas o sonho foi na sua alma a labareda das revoltas desequilibradas, dos desesperos das pequenas inteligências, alma do Brasil nas revoltas. Com homens como Tiradentes, o Brasil teria um rosário de mártires sem eficácia. Certo, D. Pedro gritou: Independência ou morte, no Ipiranga — o sítio transfigurador de todas as partidas de conquista moral e física do Brasil. Mas D. Pedro era a pequena inteligência afundada no jorro das impetuosidades e das inconstâncias. O Brasil poderia ter vários D. Pedro e jamais teria realizado a independência.

Era precisa a inteligência avisada e prática e sóbria e tenaz, o homem que pensa, estuda a ideia, age depois decidido, sério e ordeiro, o conquistador conservador — o ser nascido naquele planalto sagrado, caminho de Damasco, onde a fé arde perene, de onde partiram os demarcadores do Brasil: — era preciso o paulista. José Bonifácio tomou a ideia dos poetas, afogada no sangue de um desesperado, agitou no momento os homens e as coisas, fez desses elementos o círculo de ferro do ímpeto de D. Pedro de Bragança, esse D. Carlos sem cultura. E D. Pedro falou o que José Bonifácio resolvera: — Independência ou morte!

Quantas vezes, depois de José Bonifácio e para a salvação do Brasil, São Paulo não tem dado, através da nossa curta história, a palavra de conquista conservadora, a ordem convincente que retém o delírio, o conselho que obriga a recuar do abismo? Ainda naquele momento aquela continuação de festa cívica, aplaudindo a genuflexão do Futuro diante do Passado, não era o aviso exemplar, a prova conservadora, o culto exemplo, o desejo de remir a Pátria nos mesmos sentimentos, de integrar a nacionalidade diante do desastre a que nos arrasta o guincho insultante dos desmanteladores de valores e o ceticismo dos sem cultura?

— A queda do respeito é a dispersão das forças, como de uma cidade de muralhas estreitas a pilhagem é a morte dos melhores.

José Bonifácio pensava com a alma de São Paulo. Os seus estadistas têm ainda essa alma e agem para guiar sempre o instinto da raça, que é a força vital das pátrias. Aquela lição de civismo, disciplina da inteligência à corrida do futuro, era como as grandes fogueiras, que outrora, nos montes gregos, assinalavam e falavam na treva por clarões. A mocidade curvava-se diante de três bustos, tendo no peito apenas o coração do patriarca. E, por isso, para o seu brilho olhava confiante o povo.

Mas o dia, que acabara assim, precisava ter a apoteose da noite, a apoteose da vigilância do presente, o fulgor de custódia que se abrira, à luz do sol, mostrando a floração da juventude. E então, à noite, pelas ruas apinhadas de gente, levadas como em baterias pelas marchas militares, os batalhões da força pública correram com fachos na mão até o largo do Palácio e aí, diante das janelas governamentais, ao clarão de milhares de balões e de achas em fogo — soldados e a multidão cantaram os hinos da Independência, da Proclamação da República. Na noite escura, às lufadas do vento, chamas dançavam como um incêndio sobre o qual bailavam os balões luminosos com as cores nacionais, todas as bandeiras do dia feitas estrelas guiadoras de um único ideal. E ninguém jamais poderá dizer a estranha, a dominadora, a imensa impressão de fervor diante desse oceano ardente, de onde subiam aos céus, entre fanfarras e chamas, sob a ânsia de milhares de bandeiras em luz, os hinos inebriantes de amor à Pátria.

— A gente é da sua terra como do seu sangue.

Nesse dia de ouro da independência, o grande Estado dizia ao Brasil, diante da ara do Passado, com o respeito do Presente e certeza no Futuro, a lição exemplo — cada homem de São Paulo foi, é e será da sua Pátria, como de seu sangue.

As Réplicas do Colar de Dinizulu Existentes no Mundo, Reconhecidas pelo Movimento Escoteiro

Mais uma vez, voltamos à continuidade do excelente livro “Tradições Escoteiras — O Parque de Gilwell e a Insígnia de Madeira” do Jaguatirica Moacir Starosta.

Boa leitura!


Para marcar o XII Jamboree Mundial, ocorrido em Idaho, Estados Unidos e o 60º Aniversário do Movimento Escoteiro em 1967, os escoteiros da África do Sul conjuntamente com rovers europeus, confeccionaram quatro réplicas do colar de Rei Dinizulu.

Depois de intensas buscas por material e meses de duro trabalho, quatro reproduções foram completadas.

Um dos colares foi conservado pelos escoteiros da África do Sul, como uma grata recordação histórica da terra de origem do emblema da Insígnia de Madeira, e os outros três foram doados para o Jamboree onde cada um deles foi presenteado solenemente a R. T. Lund em nome do Bureau Mundial dos Escoteiros, ao Chefe Escoteiro Executivo Joe Brunton em nome dos Escoteiros Americanos (BSA) e o Chefe de Campo John Thurman em nome do Parque de Gilwell. Além destas réplicas, poderão existir outras espalhadas pelo mundo. Relata-se que, um ano após, ou então, após a Insígnia de Madeira ter sido instituída, um escotista observador teria visitado um mercado ao ar livre a leste oriental de Londres, em Portobello Road, aonde existiria uma barraca onde fora avistado uma cópia fiel do colar de contas.

Ele prontamente o comprou e a enviou a Gilwell, mas sem o reconhecimento do Movimento Escoteiro, como sendo réplicas vinculadas à história que envolveu B-P e Dinizulu.

Revista World Scouting, setembro de 1967.

Quatro Escoteiros zulus exibem uma das réplicas do colar de Dinizulu, 1967. Eles são, da esquerda para a direita, Xolan Mseka, Leonard Ndhlovu, Jerome Nkhize e Harvey Khuzwayo de Durban, Natal, África do Sul — foto de Eileen Bery Smith©, 1967.

Two Lovely Black Eyes

Esse texto, de autoria do saudoso Moacyr Mallemont Rebello Filho, monitor eterno da Patrulha Jaguatirica, é de 09/07/2007. Relaciona uma canção muito querida por nós, um estado brasileiro, um navio da Marinha de Guerra do Brasil, o Movimento Escoteiro e um compositor inglês.

O texto foi adaptado por Ricardo Coelho dos Santos, escriba da Patrulha.

Boa leitura a todos!


A canção bastante conhecida por todos nós, principalmente os mineiros — “Oh! Minas Gerais”, foram os cariocas que criaram em 1910 quando viram surgir majestosamente, em 1910, o Encouraçado “Minas Gerais”, aportando na Baia de Guanabara.

Encouraçado “Minas Gerais”, que trouxe como bagagem uma carga preciosa: a semente do Escotismo no Brasil!!! Ancorou na Baia de Guanabara em 1910.
Crédito da foto: naval.com.br

Essa valsa foi uma paródia que os fluminenses criaram em cima da tradicional canção napotitana “Viene Sul Mare” (Vindo do Mar, segundo o Chefe Giancarlo Valente, que me ajudou na tradução).

O que ninguém sabia é que “Viene Sul Mare” é uma paródia de uma valsa tradicional inglesa, que Charles Coburn compôs, “Two Lovely Black Eyes” (Dois Lindos Olhos Negros). E, não termina ai a história de um poema escocês do século XVIII.

Existe uma rara gravação do próprio Charles Coburn de 1934. Segundo cálculos, tinha sido executada mais de 250.000 vezes em apresentações por toda a Europa.

Segue abaixo a letra original da canção. Agradeço ao Chefe Eduardo Pereira que motivou esta e outras pesquisas.


Two Lovely Black Eyes

Charles Coburn


Strolling so happy down Bethnal Green
This gay youth you might have seen,
Tompkins and I, with his girl between,
Oh! what a surprise!
I prais’d the Conservatives frank and free,
Tompkins got angry so speedilee,
All in a moment he handed to me,
Two lovely black eyes!


Next time, I argued I thought it best,
To give the conservative side a rest.
The merits of Glad-stone I freely pressed, When
Oh! what a surprise!
The chap I had met was a Tory true,
Nothing the Liberals right could do,
This was my share of that argument too,
Two lovely black eyes!


The moral you’ve caught I can hardly doubt
Never on politics rave and shout,
Leave it to others to fight it out, if
You would be wise
Better, far better, it is to let,
Lib’rals and Tories alone, you bet,
Unless you’re willing and anxious to get,
Two lovely black eyes!


CHORUS:
Two lovely black eyes!
Oh! what a surprise!
Only for telling a man he was wrong,
Two lovely black eyes!

Escotismo, História da Educação e Memória

Dessa vez, apresentaremos mais um texto brilhante do Jaguatirica Jorge Carvalho do Nascimento.

Prof. Jorge Nascimento é Doutor em História pela Universidade Federal de Sergipe e autor do maravilhoso livro “A Escola de Baden-Powell”. Além de incansável pesquisador, também é um autor aclamado. Seu mais recente sucesso, “Julho”, já está na sua segunda edição. É autor também de “A Cultura Ocultada”, além de vários outros trabalhos publicados na Internet, como esse, que apresentaremos agora, que foi uma proposta para o blog da Patrulha, antes publicado em outro canal, em 27 de junho de 2007.

Boa leitura a todos!


O movimento escoteiro é uma forma de associação voluntária[1], uma organização não-governamental internacional. Os principais estudos sobre o Escotismo publicados no Brasil por pesquisadores ligados ao campo da História da Educação, contudo, costumam analisar o Escotismo apenas a partir de alguns aspectos sob os quais o projeto de Baden-Powell foi apropriado no país, reduzindo-o a uma proposta político-ideológica de construção da nacionalidade. Assim, o Escotismo é visto como mero movimento de militarização da infância, prática de natureza patriótica, cívico-militar presente na escola primária no início do século XX, ao lado da ginástica e dos exercícios militares. O projeto de Baden-Powell foi reduzido, muitas vezes, no Brasil, ao conjunto de práticas do Escotismo escolar dominantes nas décadas de 10 e 20 do século passado e identificado como movimento militarista nacionalista na Educação brasileira.

Em algumas ocasiões, para o pesquisador de História da Educação, analisar práticas de Educação extraescolar como o Escotismo é, em certa medida, ainda deparar-se com aquilo que pode causar alguma estranheza. Não obstante, contactar com aquilo que não é usualmente objeto de estudo do campo facilita observar as semelhanças e diferenças em face das possibilidades de compreender os objetos convencionais de estudo da área, mostrando características universais e particulares. Diante de objetos como o Escotismo, é necessário que o historiador da Educação seja capaz de resistir às tentações do julgamento do passado e tente extrair dele apenas os sentidos que originalmente ali estavam postos, compreendendo as prerrogativas que são próprias à escola como agência educativa e aquelas que estão em outros espaços, outras agências de Educação organizadas pelas práticas da vida social.

Como a escola, o movimento escoteiro é um lugar de memória. Tal como afirma Maria Cecília Cortez Christiano de Souza acerca da instituição escolar, é possível dizer também quanto ao Escotismo: “Quando o olhar pode atravessar a espessura do tempo, distingue vestígios reconhecíveis de sua história”[2].

Para entender aquilo que o lord Baden-Powell propôs e colocou em prática é fundamental que se compreenda a sua maneira de pensar, captar as diferenças da sua proposta em face do que tal projeto pretendia ser, observando as recomendações metodológicas formuladas por Robert Darnton, quanto a arbitrariedade utilizada para classificar os objetos de estudo: “Ordenamos o mundo de acordo com categorias que consideramos evidentes simplesmente porque estão estabelecidas. Ocupam um espaço epistemológico anterior ao pensamento e, assim, têm um extraordinário poder de resistência. Postos diante de uma maneira estranha de organizar a experiência, no entanto, sentimos a fragilidade de nossas próprias categorias e tudo ameaça desfazer-se. As coisas se mantêm organizadas apenas porque podem ser encaixadas num esquema classificatório que permanece inconteste”[3].

É possível captar as práticas do Escotismo, com o auxílio de categorias como práticas e representações, difundidas no campo da História da Educação principalmente por Roger Chartier, bem como em face das contribuições que se pode extrair de categorias de análise como táticas e estratégias, defendidas por Michel de Certeau. Para este último, é importante explicitar o processo de produção do discurso historiográfico, o modo através do qual os fatos são tornados inteligíveis, os sentidos que são dados aos registros documentais, a narrativa e a interpretação. É necessário confrontar constantemente teoria e empiria, de modo a reinventar os conceitos, considerando não apenas as certezas teóricas, mas também aquilo que revelam os registros documentais.

Portanto, é fundamental inventariar as práticas do movimento escoteiro, compreendendo ser este um importante objeto da História da Educação, buscando a sua etnografia, as suas evocações, a sedução produzida por este movimento na memória daqueles que foram escoteiros e escotistas. Sedução que se expressou nas suas práticas de normalização social e nas representações que se fez de tais práticas. Participar do movimento escoteiro era assim, participar do universo de uma nova cultura, uma cultura que oferecia uma visão de mundo articulada em torno de uma proposta de autoformarão, que produzia forte impacto nas emoções, nas paixões, na paisagem natural, na paisagem urbana, nos processos de aprendizagem da vida, nas experiências de contato com a natureza, na produção de uma identidade cidadã.


NOTAS

[1] As associações voluntárias são também conhecidas como associações livres ou sociedades de ideias. Esse modelo associativo começou a se constituir entre os ingleses a partir do século XVII. Todavia, foi na América do Norte que o modelo mais se desenvolveu. “Os ingleses dos Estados Unidos encontraram-se (…), desde o início, divididos num grande número de pequenas sociedades distintas que não se prendiam a nenhum centro comum, e foi necessário que cada uma dessas pequenas sociedades cuidasse de seus próprios negócios, visto que não se percebia em parte alguma uma autoridade central que devesse naturalmente e pudesse facilmente se encarregar deles”. Cf. TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Livro I. Leis e costumes. 1a. ed. 2a. tiragem. São Paulo, Martins Fontes, 2001. p. 456.

[2] Cf. SOUZA, Maria Cecília Cortez Christiano de. Escola e memória. Bragança Paulista/SP: IFAN-CDAPH/Editora da Universidade São Francisco, 2000. p. 7.

[3] Cf. DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos e outros episódios da História Cultural francesa. Tradução de Sônia Coutinho. Rio de Janeiro, Graal, 1986. p. 248.

A Insígnia de Madeira em seus Vários Graus e Utilização no Movimento Escoteiro nas Diversas Seções

Voltamos hoje a mais um trecho do livro “Tradições Escoteiras — O Parque de Gilwell e a Insígnia de Madeira” do Jaguatirica Moacir Starosta.

Aproveitamos para manifestar nosso imenso alívio dele ter sobrevivido à covid-19. Muita saúde pra você, Moacir!


Para o Ramo Lobinho, B-P teria utilizado por um breve período, primeiramente, unhas de lobo e após dentes de lobo, nos anos de 1921 e 1923, costume logo abandonado por ser considerado ecológico incorreto.

Entre os anos de 1923 e 1925, uma pequena esfera de madeira teria sido utilizada acima do nó, com três cores: amarelo, verde e vermelho, de acordo com o ramo que o escotista pertencesse.

Além destes costumes, que não prosperaram, surgiu um que perdura até os dias de hoje, que seria a quarta e a terceira conta do colar, sendo a quarta conta conferida aos Deputados de Campo e aos Akelas Lideres (termos em desuso), atualmente Diretores de Cursos da Insígnia de Madeira. Aos Assistentes Lideres de Treinamento (termo também em desuso), atuais Diretores de Curso Intermediário, era concedida a terceira conta.

Cabe ressaltar, que uma das contas concedidas era original do colar de Dinizulu aos integrantes dos primeiros cargos após sua instituição.

Existiu uma pessoa que poderia utilizar cinco contas, seu nome era William Hillcourt, mais conhecido por “Green Bar Bill” em alusão à insígnia dos monitores de patrulha da Boy Scouts of America, associação escoteira dos Estados Unidos, a qual foi a pessoa que introduziu o esquema de formação de escotistas em nível avançado (Curso da Insígnia de Madeira) nos Estados Unidos e, trabalhou arduamente pelo desenvolvimento da formação de adultos fora de Gilwell, publicando inúmeros livros.

Em reconhecimentos por seus valiosos serviços prestados a formação de adultos, foi entregue a ele, em Gilwell em 1969, uma quinta conta retirada do colar original de Dinizulu, costume que desapareceu com sua morte.

Faleceu em 10 de novembro de 1992, aos 92 anos, três meses e três dias.