O Cerco de Mafeking — Final

Terminamos aqui o Capítulo 24 do livro “A Grande Guerra dos Bôeres”, de Arthur Conan Doyle.

Recomendamos que se procure o livro inteiro. Não sabemos da existência de alguma tradução para o português, mas, encontrando, valerá a pena ser lido integralmente. Foi com essa obra que Conan Doyle recebeu o título de Cavaleiro, e não do seu genial Sherlock Holmes ou do imaginativo “O Mundo Perdido”.

Lendo atentamente, pode se reparar o quanto que o autor enaltecia a raça branca, as ações heroicas dos britânicos e os valores imperiais da Inglaterra. Isso foi bem característico da época, quando até cientistas renomados pregavam erroneamente a superioridade da raça branca, dando no que deu na Segunda Grande Guerra.

O nacionalismo exacerbado não foi característica só dos britânicos. É um fenômeno mundial, ainda existente em muitos países. No Brasil, o ufanismo foi marcante até à década de 1950, dando um tímido retorno na década de 1970. É discutível a afirmação que isso é uma coisa boa, mas, com certeza, acreditar que tudo no Brasil é ruim, de má qualidade, não é nada bom.

Passemos, portanto, à última parte de “O Cerco de Mafeking”.

Boa leitura a todos!

Tradução: Ricardo Coelho dos Santos


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Foto: Baden-Powell em Mafeking. B-P está no centro.

Coronel Mahon, um jovem oficial irlandês que fez sua reputação como chefe da cavalaria no Egito, partiu no início de maio de Kimberley com uma força pequena mas rápida, formada pela Cavalaria Ligeira Imperial (trazida das cercanias de Natal para esse propósito), os Corpos Montados de Kimberley, a Cavalaria dos Campos de Diamante, algumas unidades territoriais montadas do Império, um destacamento da Polícia do Cabo e 100 voluntários da brigada de Fuzileiros, com o Terceiro Regimento da Artilharia Real Montada e pompons, dando duzentos homens ao todo. Embora Hunter estivesse em ação, lutando em Rooidam em 4 de maio, Mahon com seus homens atacou o flanco oeste dos bôeres e se moveu rapidamente na direção norte. Em 11 de maio, ele deixou Vryburg, o abrigo do meio da jornada, para trás, fazendo cento e vinte milhas em cinco dias. Eles se apressaram, sem encontrar resistências, fora as naturais, e logo perceberam que eles estavam sendo observados de perto pelo inimigo. Em Koodoosrand, descobriram que uma força bôer estava em posição à frente, mas Mahon os evitou com uma pequena volta pelo lado oeste. O desvio que ele tomou, entretanto, o levou a um cerrado, e aqui o inimigo o enfrentou, abrindo fogo a curta distância, até chegar a onipresente Cavalaria Ligeira Imperial, que passou a conduzir a coluna. Um pequeno drama ocorreu, com baixas que somaram trinta mortos e feridos, mas que terminou com a derrota e a dispersão dos bôeres, cuja força era certamente muito menor que as britânicas. Em 15 de maio, a coluna de salvação chegou sem mais oposições em Masibi Stadt, vinte milhas a oeste de Mafeking.

Nesse meio tempo, a força de Plumer no norte foi reforçada pela incorporação da bateria C de quatro canhões de 12 polegadas da Artilharia Canadense sob o comando do Major Eudon e um corpo de Queensladers. Essas forças eram parte de um pequeno exército que veio com o General Carrington por Beira, e depois de um desvio de milhares de milhas, pelo seu próprio e maravilhoso esforço, chegaram a tempo de formar uma parte da coluna de salvação. Críticos militares estrangeiros, cujas experiências de guerra era de mover tropas através de fronteiras, poderiam pensar o que o Império costuma fazer antes dos seus homens irem a uma batalha. Esses contingentes foram formados ao longo das ferrovias, transportados por milhares de milhas pelo oceano até Cidade do Cabo, arregimentaram acerca de mais dois mil para Beira, todos transferidos por uma ferrovia de bitola estreita para o Riacho Bambu, mudaram para uma bitola maior até Marandellas, viajaram em carroças por centenas de milhas para Bulawayo, foram transferidos para trens para outras quatrocentas ou quinhentas milhas para Ootsi e finalmente fizeram uma marcha forçada por cem milhas, que lhes deram algumas horas antes de suas presenças serem urgentemente necessárias no campo. Seu avanço, com uma média de vinte e cinco milhas por dia a pé por quatro dias seguidos em estradas deploráveis, foi um dos melhores desempenhos da guerra. Com esse reforço altamente motivado e com os próprios rodesianos rudes, Plumer avançou e as duas colunas alcançaram o vilarejo de Masibi Stadt em uma ou duas horas. Seus esforços reunidos eram muitos superiores de qualquer coisa que a força de Snyman poderia colocar contra eles.

Mas os valentes e resistentes bôeres não abandonariam sua pradaria sem um último esforço, e quando o pequeno exército avançou sobre Mafeking, eles encontraram o inimigo esperando numa posição forte. Por algumas horas, os bôeres valentemente seguraram seu terreno, e seu fogo de artilharia foi, como sempre, mais preciso. Mas nossos próprios canhões eram mais numerosos e serviram bem do mesmo jeito, e a posição logo ficou indefensável. Os bôeres abandonaram Mafeking e se refugiaram nas trincheiras na parte leste, mas Baden-Powell, com sua guarnição endurecida pela guerra, avançou e, apoiado pelo fogo da artilharia da coluna de salvação, os retirou do seu abrigo. Com sua admirável tática de sempre, os bôeres removeram seus canhões maiores, mas um pequeno canhão foi retido como um suvenir para o povo da cidade, juntamente com alguns vagões e uma considerável quantidade de suprimento. Uma grande faixa de poeira no horizonte a leste registrou que o famoso cerco de Mafeking tinha finalmente terminado.

Assim terminou esse incidente singular, a defesa de uma cidade aberta que não possuía soldados regulares e a mais inadequada artilharia contra um inimigo numeroso e empreendedor com vários canhões pesados. Toda honra ao povo da cidade que enfrentou sua prova tão longa e com tanta bravura — e aos indomáveis homens que seguraram as trincheiras por sete exaustivos meses. A constância foi de enorme valor ao império. Nos importantíssimos primeiros meses, pelo menos quatro ou cinco mil bôeres foram detidos por eles onde suas presenças onde quer que estivessem pudessem ser fatais. Durante todo o resto da guerra, dois mil homens e oito canhões (incluindo um dos grandes Creusots) foram retidos. Isso evitou a invasão da Rodésia e ofereceu um local de encontro para os brancos leais e nativos na grande extensão de terras entre Kimberley e Bulawayo. Tudo isso foi, ao custo de duzentas vidas, realizado por esse devotado grupo de homens que mataram, feriram ou enfrentaram diretamente não menos que mil dos seus oponentes. Críticos hão de afirmar que o entusiasmo no império foi excessivo, mas, mas foi minimamente desempenhado por homens dignos e um apurado manejo de armas.

FIM

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O Cerco de Mafeking — Sarel Eloff

Estamos na quarta parte do Capítulo 24 do livro “A Grande Guerra dos Bôeres”, de Arthur Conan Doyle.

Dizer que Baden-Powell foi o único e verdadeiro herói dessa batalha seria exagero. Mas ele foi o líder que, direta ou indiretamente, inspirou comandados e parceiros em perigosas façanhas, algumas com resultados fatídicos. Em guerras, fatalidades não só são esperadas como, na maioria das vezes, exigidas. Quem joga xadrez, sabe que os peões e às vezes até a rainha devem ser sacrificados para a vitória final. Reza a lenda que foi com esse jogo que um monarca entendeu o valor do sacrifício do filho em uma batalha. Rudyard Kipling, autor de “O Livro da Jângal”, também perdeu o filho na Primeira Grande Guerra.

Mas, como pode se ver nessa parte do capítulo, B-P não estava muito preocupado com as fatalidades que o cercavam, e isso, como já vimos, não só irritava seus inimigos como animava seus soldados. Praticamente desprovido de canhões, ele, entretanto, estava cultivando a maior das armas, tanto para militares como para os civis que ele tinha de proteger: a motivação.

Uma coisa devo dizer sobre a tradução. Arthur Conan Doyle era um escritor do século XIX, e muitos dos termos utilizados por ele estão fora de uso atualmente. Além do mais, expressões militares inglesas foram muito utilizadas. Assim, foram consultados dois dicionários para possibilitar o trabalho: o CD que veio em anexo ao Oxford Escolar, e o Linguee, dicionário on-line (www.linguee.com.br).

Boa leitura a todos!

Tradução: Ricardo Coelho dos Santos


Nesse meio tempo, Mafeking — abandonada, ao que parecia, ao seu destino — se mantinha tão formidável como um leão ferido. Longe de estar fraquejando em suas defesas, se tornou mais agressiva, e tão persistentes e hábeis eram seus atiradores que o grande canhão dos bôeres teve várias vezes de ser afastado da cidade. Seis meses de trincheiras e poços para atiradores transformou cada usuário num veterano. Constantemente, palavras anônimas de elogio e encorajamento chegavam até eles. Uma vez veio uma mensagem especial da rainha, com a promessa de salvação através de Lorde Roberts. Mas a ferrovia que levava à Inglaterra estava coberta de mato, e os bravos corações ansiavam por ver seus patrícios e escutar o som de suas vozes. “Quanto tempo mais, oh Senhor, quanto tempo?” era o lamento arrancado deles pela solidão. Mas a bandeira continuava altiva.

Abril foi um mês de tentativas para a defesa. Eles souberam que em Methuen, onde as forças britânicas tinham avançado até Catorze Fontes, no Rio Vaal, recuaram de novo até Kimberley. Souberam também que as forças de Plummer tinham sido enfraquecidas repelidas de Ramathlabama, e que vários dos seus homens foram derrubados pela febre. Seis exaustivos meses mantiveram essa cidade contra o bombardeio impiedoso de balas de rifles e de bombas. O socorro parecia estar mais longe que nunca. Mas se os problemas podem ser amenizados pela solidariedade, então esses se tornaram leves. A atenção de todo império estava centrada neles, e mesmo o avanço do exército de Roberts se tornou secundário para o destino desses valentes e esforçados homens que mantiveram a bandeira erguida por tanto tempo. Até no Continente sua resistência atraiu o interesse da maioria, e os inúmeros jornais que encontraram escritores criativos, mais baratos que os correspondentes de guerra, anunciavam sua capitulação periodicamente, como fizeram em Ladysmith. De uma mera cidadela, Mafeking se tornou um troféu de vitória, um marco que poderia ser um sinal visível da predominante virilidade de um ou de outro componente das raças brancas da África do Sul. Sem consciência das emoções entusiasmadas que eles causaram, a guarnição despertava sua força interior, e capturavam gafanhotos como petiscos nas suas refeições, enquanto se disputava um animado torneio no salão de bilhar do clube para preencher suas horas de folga. Mas a vigília, a cargo de homens com olhos de águia na Torre Conning, nunca relaxava. Os sitiantes cresceram em número e seus canhões estavam mais numerosos que antes. Até alguém menos preparado que Baden-Powell raciocinaria que ao menos um esforço desesperado poderia vir deles para invadir a cidade antes da chegada do socorro.

No sábado, dia 12 de maio, o ataque ocorreu na hora favorita dos bôeres — nas primeiras luzes da manhã. Foi um ato corajoso executado por cerca de trezentos voluntários sob o comando de Eloff, que cercaram furtivamente o oeste da cidade — o lado mais distante da linha dos sitiantes. No primeiro ataque, penetraram no quarteirão nativo, que foi incendiado. A primeira edificação de qualquer tamanho que fosse daquele lado era para alojamento do Regimento do Protetorado, que foi defendido pelo Coronel Hore e cerca de vinte dos seus oficiais e homens. Foi tomado pelo inimigo, que mandou uma mensagem exultante por telefone a Baden-Powell para avisar que eles tomaram aquele lado. Duas outras posições na linha, uma fortificação de pedras e um morro, foram mantidas pelos bôeres, mas seus reforços eram lentos em ajudar, e os movimentos dos defensores eram tão prontos e enérgicos que todas as três frentes se viram isoladas e cortadas das suas próprias linhas. Eles tinham penetrado na cidade, mas estavam longe de tomá-la. Durante todo o dia as forças britânicas fizeram um cordão cada vez mais apertado na posição dos bôeres, sem pressa, cercando-os de tal maneira que não haveria como escapar. Alguns nativos conseguiram fugir em pares ou trios, e a maioria deles julgou que tivessem sido arrastados a uma prisão cuja única saída seria o fuzilamento. Às sete horas da noite, reconheceram que sua posição era sem esperanças e Eloff com 117 pessoas lançaram suas armas ao chão. Suas perdas foram de dez mortos e dezenove feridos. Por alguma razão, seja por letargia, covardia ou traição, Snyman não tinha colocado reforços, o que teria possivelmente alterado o resultado. Foi um ataque valente, corajosamente mostrado, e mais uma grande disposição em combate foi mostrada pelos britânicos. O fim foi característico. “Boa noite, Comandante,” disse Powell para Eloff; “você não quer entrar e jantar?”. Os prisioneiros — nativos, holandeses, alemães e franceses — receberam uma ceia dentro da possibilidade dos pobres mantimentos da cidade.

Assim, o ataque de Eloff foi a última pequena chama de glória no final desse cerco a Mafeking, através de indubitavelmente a pior das tentativas que uma guarnição poderia encarar. Seis mortos e dez feridos foram as perdas britânicas nessa ação admiravelmente administrada. Em 17 de maio, cinco dias após o combate, as forças de socorro chegaram, os sitiantes foram dispersados e a guarnição que ficou cercada há tanto tempo era de homens livres outra vez. Muitos dos que olharam seus mapas e viram esse posto isolado bem no coração da África ficaram desesperados em mesmo se aproximar dos aliados daquele lugar, e agora, uma explosão universal de toques alegres de sinos e fogos de artifício, de Toronto a Melbourne, proclamaram que não existe um ponto tão inacessível que o longo braço do império não poderia alcançar quando seus filhos estão em perigo.

[A seguir: Final]

O Cerco de Mafeking — O Trem Blindado

Essa é a terceira parte do Capítulo 24 do livro “A Grande Guerra dos Bôeres”, de autoria de Arthur Conan Doyle.

Como podem reparar, foi uma batalha com baixas de ambos lados. As guerras sempre vêm com prejuízos de vidas humanas.

É muito pouco citado, na literatura sobre Mafeking, as mortes entre os soldados. Isso é compreensível, pois costuma-se associar negativamente as pessoas às fatalidades, mesmo que acidentais ou em casos de guerra. Alguns pensadores chamam os soldados de assassinos, mesmo que eles têm lutado para a sua sobrevivência.

Não é uma discussão fácil e não se pode sequer se afirmar quem tem razão ou não nesse embate filosófico. Trata-se de ideias que podem estar certas e, simultaneamente, erradas, parodiando Schrödinger.

Mas a maior característica da Guerra dos Bôeres é que não foi um ato de um grupo de pessoas que se rivalizou com outro. Ambos lados mantinham uma convivência tão positiva que Baden-Powell, depois da Guerra, chamou os antigos inimigos para compor sua Polícia.

A Guerra dos Bôeres foi eminentemente política. Um grupo político não aceitava outro. E esses foram os verdadeiros responsáveis pelo que houve. Mais do que os soldados em condições extremas.

Boa leitura a todos!

Tradução: Ricardo Coelho dos Santos


Num caso em particular, Mafeking tinha, com tão poucos recursos, rivalizado com Kimberley. Uma fábrica de materiais bélicos foi instalada, dentro das oficinas da ferrovia e conduzida por Connely e Cloughlan, do Departamento de Locomotivas. Daniels, da polícia, colaborou com seus esforços fabricando tanto pólvora como detonadores. A fábrica produzia projéteis e de vez em quando construía um canhão de bordas arredondadas de 5,5 polegadas, que lançava um projétil esférico com grande precisão numa distância considerável. Em abril, a guarnição se via, apesar de todas suas perdas, tão eficiente e resoluta como estava em outubro. As trincheiras avançadas de cada lado estavam tão próximas que os dois oponentes usaram do antiquado recurso de granadas de mão, atiradas pelos bôeres e lançadas por uma linha de pesca pelo engenhoso Sargento Page, do Regimento do Protetorado. Algumas vezes, os sitiantes e o número de canhões diminuíam, forçadas para evitar o a avanço da coluna libertadora de Plummer, vindo do norte; e a guarnição que ficou protegendo suas fortalezas, que estavam além do alcance do poder de assalto dos britânicos, estava agora preparada da melhor maneira possível para o abandono. Deixando Mafeking para Ladysmith e Plummer para Buller, a situação não estava diferente daquela que ocorreu em Natal.

Nesse ponto, alguns relatos devem ser feitos das façanhas daquela força do norte, que estava tão distante que mesmo um correspondente onipresente dificilmente conseguiria alcançá-la. Sem dúvida, esse livro pode eventualmente estar em paz com o que os fatos negligenciados, mas alguns pequenos acontecimentos devem ser relatados aqui a respeito da coluna da Rodésia. Sua ação não afetou o curso da guerra, mas agarrou feito buldogues na tarefa mais difícil, e, eventualmente, quando reforçaram a coluna libertadora, fizeram sua história em Mafeking.

A força foi originalmente levantada no propósito de defender a Rodésia, e consistia da fina flor dos pioneiros, fazendeiros e mineradores desse grande país nascente, que foi anexado ao Império Britânico pelo empenho do Sr. Rhodes. Muitos homens eram veteranos de guerras no país, e estavam todos imbuídos com espíritos robustos e aventureiros. Por outro lado, os homens do norte e do oeste do Transvaal, chamados para enfrentar os habitantes de Watersberg e Zoutpanberg, eram de fronteira, rudes, vivendo numa terra em que um jantar tinha de ser caçado, e não comprado. Peludos, cabeludos, meio selvagens, segurando um rifle como um inglês medieval segurava um arco, e habilidosos em todas as nuances da vida naquelas terras, eles eram os oponentes mais formidáveis que o mundo poderia mostrar.

Com o irrompimento da guerra, o primeiro pensamento dos líderes na Rodésia foi salvar o máximo a linha férrea que fazia conexão para o sul através de Mafeking da melhor maneira possível. Para esse propósito, um trem blindado foi enviado logo em três dias após o fim do ultimato, para quatrocentas milhas ao sul de Bulawayo, na união das fronteiras do Transvaal e da Bechuanalândia.  Coronel Holdsworth comandou essa pequena força britânica. Os bôeres, mais ou menos em número de mil, vinham pela ferrovia e uma ação se seguiu em que parece que o trem teve uma sorte melhor do que usualmente ocorre nesses artifícios fatídicos. Os soldados bôeres recuaram e alguns morreram. Esse acontecimento foi provavelmente noticiado, e não foi algo que tenha ocorrido em Mafeking, causando rumores de desânimo em Pretoria muito pouco tempo após o início das hostilidades. Uma agência noticiosa telegrafou informando que as mulheres estavam chorando nas ruas da capital bôer. Não temos ideia quando e quantas vezes podemos ver a mesma coisa em Pall Mall.

O trem blindado aventureiro prosseguiu até Lobatsi, onde deparou com as pontes destruídas; então, retornou para seu ponto de partida, tendo outro conflito com os soldados bôeres e, de novo, de alguma forma maravilhosa, escapou do seu destino óbvio. A partir desse dia até o ano novo a linha foi mantida aberta pelo admirável sistema de patrulhamento até mais ou menos cem milhas de Mafeking. Um espírito agressivo e mostras de um pouco de iniciativa foram exibidas pelas operações britânicas nesse lado da cena de guerra que tem se mostrado tão rara em outros lugares. Em Sekwani, em 24 de novembro, um sucesso considerável foi obtido por uma surpresa planejada e realizada pelo Coronel Holdsworth. Uma composição fortificada bôer foi abordada e atacada na manhãzinha por uma força de cento e vinte homens de fronteira, e esse fogo foi muito efetivo para os bôeres que estavam estimados em vários milhares em número. Trinta bôeres morreram ou foram feridos e o resto se dispersou.

Enquanto a linha férrea era guardada dessa maneira, ocorreram algumas escaramuças na fronteira norte do Transvaal. Logo após o início da guerra, o valente Blackburn, desbravando com seis camaradas no matagal espesso, se viu na presença de um considerável grupo de inimigos. Os britânicos se ocultaram pelo caminho, mas os pés de Blackburn foram vistos por um observador de Kaffir, que os mostrou para os patrões. Uma súbita saraivada crivou Blackburn de balas; mas seus homens se mantiveram a postos e afastaram o inimigo. Blackburn ditou um relatório oficial da ocorrência, e, então, faleceu.

Na mesma região, uma pequena força comandada pelo Capitão Hare foi cortada por um corpo de bôeres. Dos vinte homens, a maioria escapou, mas o capelão J. W. Leary, o Tenente Haserick (que se comportou com uma bravura admirável) e seis homens foram feitos prisioneiros {Nota de rodapé original: O Senhor Leary foi ferido no pé por uma bomba. O artilheiro alemão entrou no barraco onde ele estava. “Aqui está uma mostra do seu trabalho!”, disse Leary bem-humorado. “Eu gostaria que tivesse sido pior”, respondeu o amável canhoneiro alemão.}. Os soldados inimigos que atacaram esse grupo, e, no mesmo dia, uma força do Coronel Spreckley, eram uma tropa poderosa, com vários canhões. Sem dúvida, foram organizados porque havia entre os bôeres o temor de serem invadidos pelo norte. Quando perceberam que os britânicos não intencionavam um movimento tão agressivo daquela região, esses moradores se juntaram a outras guarnições inimigas. Sarel Eloff, que foi um dos líderes destacados para o norte, veio a ser mais tarde tomado prisioneiro em Mafeking.

Coronel Plummer assumiu o comando de um pequeno exército que agora estava operando no norte ao longo da ferrovia para Mafeking com esse objetivo. Plummer era um oficial com considerável experiência em combates africanos. Um homem baixo, calado, resoluto, com o jeito de fazer cumprir a disciplina naquele material muito rude que ele tinha de lidar. Com essa debilitada força — que nunca excedia de mil homens, e usualmente eram de seiscentos a setecentos — ele tinha de manter a longa linha férrea atrás dele aberta, construir a ferrovia destruída à sua frente, e gradualmente mover-se furtivamente diante de um inimigo formidável e empreendedor. Por um longo tempo, Gaberones, a oitenta milhas ao norte de Mafeking, veio a ser seu quartel general, e daí conseguia manter comunicações precárias com a guarnição sitiada. Em meados de março, ele avançou até o sul de Lobatsi, que fica a menos de cinquenta milhas de Mafeking; mas o inimigo provou ser forte, e Plummer teve de retornar com alguma perda para a sua posição original em Gaberones. Insistindo tenazmente no seu objetivo, Plummer mais uma vez foi ao sul, e dessa vez conseguiu alcançar Ramathlabama, a um dia de marcha de Mafeking. Com ele havia, entretanto, somente trezentos e cinquenta homens, e teve de combater ainda a consequência de ter homens famintos na guarnição. A força de libertação foi ferozmente atacada, entretanto, pelos bôeres, e empurrada de volta para seu campo, com uma perda de doze, mortos, mais vinte e seis feridos e catorze desaparecidos. Alguns dos britânicos eram homens desmontados, e se diz que muito que a condução de Plummer no combate era que ele era capaz de livrá-los com segurança do meio dos agressivos homens montados. Pessoalmente, ele deu um exemplo admirável, mandando embora seu próprio cavalo e caminhou com os últimos dos seus soldados na fileira. Capitão Crewe Robertson e Tenente Milligan, os famosos jogadores de críquete de Yorkshire, foram mortos, e Rolt, Jarvis, Maclaren e o próprio Plummer foram feridos. A força rodesiana retirou-se mais uma vez para as cercanias de Lobatsi e se juntou mais uma vez para outro esforço.

 [A seguir: Sarel Eloff]

O Cerco de Mafeking — Baionetas

Essa é a segunda parte do texto que compõe o Capítulo 24 do livro “A Grande Guerra dos Bôeres”, de autoria de Arthur Conan Doyle.

A primeira parte faz uma referência ao Lorde Peterborough. Tratou-se de Charles Mordaunt, que invadiu a Catalunha em agosto de 1705, usando de artifícios que nem mesmo os ingleses conseguiram entender.

Sobre o texto de Conan Doyle, há quem o repudie, pois inegavelmente seu patriotismo era grande. Depois, há uma corrente que afirma que o evento de Mafeking foi importante politicamente para a Inglaterra, mas que não foi uma batalha das mais acirradas. Talvez porque não se deseje alinhar o Movimento Escoteiro a um evento sangrento.

Entretanto, não é por se negar a verdade que ela existiu. Infelizmente, há várias versões de um mesmo fato que realmente podem confirmar ou negar o valor do que Conan Doyle escreveu. Isso cabe investigações mais profundas. Mas, inegavelmente, a criatividade de Baden-Powell era espantosa.

Boa leitura a todos!

Tradução: Ricardo Coelho dos Santos


Entre as várias dificuldades que os defensores da cidade encontravam, a mais séria era o fato de que a posição tinha uma circunferência de cinco ou seis milhas a serem defendidas por cerca de mil homens contra uma força que a qualquer tempo e a qualquer lugar poderia em num instante avançar um passo. Foi idealizado um sistema engenhoso de pequenas fortificações para enfrentar a situação. Cada uma dessas fortificações abrigava de dez a quarenta fuzileiros, e eram providas por passarelas a prova de bombas e abrigadas. A fortificação central era conectada por telefone com todas as demais para ajudar na organização. Um sistema de sirenes foi montado permitindo que cada quarteirão da cidade fosse avisado quando uma bomba viesse, a tempo de permitir que os habitantes fugissem para um abrigo. Cada detalhe mostrou a engenhosidade de uma cabeça pensante. O trem blindado, pintado de verde e com touceiras de mato amarradas, permaneceu imperceptível no meio dos arbustos que cercavam a cidade.

Em 24 de outubro, começou um bombardeio selvagem, que prosseguiu com alguns intervalos por sete meses. Os bôeres trouxeram um canhão enorme através de Pretoria, lançando bombas de 96 libras, e essas, com vários estilhaços, caíam na cidade. O resultado foi tão fútil quanto a nossa artilharia, quando abriam fogo contra os bôeres.

Como os canhões de Mafeking eram muito fracos para responder ao fogo inimigo, a única represália possível seria ocasional, e quando o Coronel Powell decidisse. E aconteceu, com muita valentia, na noite do dia 27 de outubro, quando cerca de cem homens sob o comando do Capitão FitzClarence avançaram contra as trincheiras bôeres com instruções de usarem somente baionetas. A posição foi tomada com rapidez e muitos bôeres foram feridos antes deles escaparem dos seus esconderijos. As trincheiras adiante dispararam selvagemente na escuridão, e é provável que muitos bôeres tivessem sido atingidos por eles mesmos no mesmo número dos britânicos. A perda total desse ato de coragem foi de seis mortos, onze feridos e dois prisioneiros. A perda do inimigo, mesmo encoberto usualmente pela escuridão, foi certamente muito maior.

Em 31 de outubro os bôeres se aventuraram num ataque ao Canon Kopje, que é uma pequena fortificação e elevação no sul da cidade. Era defendida pelo Coronel Walford, da Polícia Sul-Africana, com cinquenta e sete homens e três pequenos canhões. O ataque foi rechaçado com várias perdas para os bôeres. As vítimas britânicas foram seis mortos e cinco feridos.

Parece que a experiência desse ataque determinou aos bôeres não fazerem mais essas tentativas tão caras para atacar a cidade, e, por algumas semanas, o cerco se reduziu a um bloqueio. Cronje foi convocado para um serviço mais importante e o Comandante Snyman assumiu essa missão incompleta. De tempos em tempos o grande canhão lançava suas bombas enormes na cidade, mas as paredes de madeira e os tetos de ferro ondulado minimizavam os perigos do bombardeio. Em 3 de novembro a guarnição inglesa atacou o Brickfields, mas foram detidos pelos fuzileiros exímios do inimigo, e no dia 7, outra pequena investida manteve o jogo vivo. No dia 18, Powell enviou uma mensagem para Snyman dizendo que ele não conseguiria tomar a cidade ficando sentado e a contemplando. Ao mesmo tempo, ele despachou uma mensagem para as forças bôeres em geral, aconselhando-os retornarem às suas casas e suas famílias. Alguns dos soldados bôeres haviam se deslocado para o sul para apoiar Cronje em sua posição combatendo Methuen, e o sítio foi reduzindo mais e mais, até que despertou numa espécie de desespero em 26 de dezembro, o que causou a maior perda que os britânicos tiveram. Mais uma lição foi aprendida de que armas modernas e igualdade de forças estão sempre divorciados da defesa.

Nessa data, um vigoroso ataque foi realizado numa das fortificações bôeres no norte. Havia uma dúvida se o inimigo tivesse alguma suspeita sobre a nossa intenção, pois a fortificação foi encontrada muito reforçada e inacessível, sem escadas. A força de ataque consistiu em dois esquadrões do Regimento do Protetorado e um dos Rifles de Bechuanaland, reforçados por três canhões. A violenta investida da equipe de ataque foi tão desesperada — um abandono de esperança, se é que teve alguma — que cinquenta e três dos oitenta soldados foram mortos e feridos, vinte e cinco na hora e vinte e oito, mais tarde. Capitão FitzClarence foi ferido. Vernon, Sandford e Paton foram mortos, todos vítimas dos canhões inimigos. Foi um dos momentos mais amargos da vida de Baden-Powell quando ele fechou seu binóculo e disse “Mandem a ambulância!”.

Nem mesmo essa tempestade molhou os espíritos ou diminuiu as energias das defesas. Entretanto, deve ter avisado Baden-Powell que ele não pode se permitir reduzir sua pequena força em nenhuma tentativa tão cara de ataque, e daqui para frente ele deveria se contentar em segurar seriamente a cidade até Plumer, no norte, ou Methuen, no sul, conseguirem ao menos lhe estenderem alguma ajuda. Vigilante e indominável, cruzando um ponto impossível no jogo que praticava, o ano novo o encontrou a ele e sua forte guarnição severamente determinados em manter a bandeira desfraldada.

Janeiro e fevereiro lhes deram registros daquela monotonia de espera angustiante do destino de toda cidade sitiada. Em um dia, o bombardeio era um pouco mais intenso. Em outro, menos. Às vezes, eles escapavam incólumes. Outras vezes, a guarnição se via mais desfalcada pelas perdas do Capitão Girdwood, do Praça Webb ou outro soldado valente. Ocasionalmente, eles obtinham seus pequenos triunfos como quando um holandês muito curioso, dando uma espiada num pequeno instante do seu esconderijo para conferir o efeito do seu tiro, acabou voltando para uma ambulância para atrás da barricada. No domingo, uma trégua era usualmente respeitada, e os franco-atiradores que trocavam tiros durante a semana se encontravam ocasionalmente nesse dia com gozações bem-humoradas. Já Snyman, o general dos bôeres, não demonstrou nenhum cavalheirismo em Mafeking, como o que distinguira o velho Joubert em Ladysmith. Além de não haver um campo neutro para as mulheres e os doentes, sem dúvida ou questionamento os canhões dos bôeres estavam deliberadamente virados para o alojamento feminino na intenção de pressionar os habitantes. Muitas mulheres e crianças foram sacrificadas por essa tática brutal, o que minimamente vai para as contas desse líder selvagem, e não nas contas desse povo rude, mas amigável, contra quem combatíamos. Em todas as disputas, há um rufião, e seria um erro político permitir que nossas ações fossem influenciadas ou nossos sentimentos ficassem permanentemente amargurados pelos seus crimes. É desse homem mesmo, e não do seu país, que a conta deve ser fechada.

A guarnição, encarando suas perdas crescentes e sua comida escasseando, não perdeu seus espíritos elevados que eram refletidos do seu comandante. O programa de um dia de festival — só o Céu sabe o que eles tinham de comemorar — tinha uma competição de críquete pela manhã, esportes pela tarde, um concerto à noite, e uma dança, oferecida pelos oficiais solteiros, para animar. O próprio Baden-Powell, que parecia ter nascido num ninho de águia, como um capitão na ponte, dava avisos pelas sirenes, ordens pelo telefone e fazia a casa cair com uma cantiga cômica e uma récita humorística. O baile ocorria admiravelmente, a não ser quando se fazia um intervalo para repelir um ataque que estragava o programa. Os esportes eram zelosamente cultivados e os moradores encardidos das casamatas e trincheiras provocavam uns contra os outros para um jogo de críquete ou futebol {Nota de rodapé original: Os jogos dominicais de críquete chocaram tanto Snyman que ele ameaçou disparar contra se esses continuassem.}. A monotonia era quebrada pela visita ocasional de um carteiro, que surgia ou desaparecia daquelas terras áridas a oeste da cidade, que não podiam ser totalmente vigiadas pelos sitiantes. Às vezes, algumas poucas palavras de casa vinham brindar os corações daqueles exilados, e poderiam retornar pelas mesmas incertas e caras maneiras. Os documentos nem sempre pareciam ter características de terem palavras essenciais ou mesmo bem-vindas. Pelo menos alguém recebeu uma conta não paga de um alfaiate furioso.

[A seguir: O trem blindado]

O Cerco de Mafeking

O texto aqui tratado compõe o Capítulo 24 do livro “A Grande Guerra dos Bôeres”, de autoria de Arthur Conan Doyle.

Arthur Ignatius Conan Doyle (22/05/1859 – 07/07/1930) foi um médico escocês que, inspirado no seu professor, criou o detetive fictício Sherlock Holmes, e, com isso, revolucionou a forma da polícia atuar em busca de criminosos. O professor havia descoberto que, pelo jeito que o zelador da sua escola mancava, que se tratava de um desertor de uma guerra.

Conan Doyle escreveu também sobre outros assuntos, como “O Mundo Perdido”, a respeito de dinossauros encontrados numa região amazônica.

“A Grande Guerra dos Bôeres” foi um livro escolar escrito em 1900 a respeito desse evento que ele participou ativamente como médico, recebendo elogios pela sua coragem e seu profissionalismo. Por isso, ele recebeu em 09/08/1902 o título de Cavaleiro.

O que está aqui então é o relato de uma testemunha próxima.

Boa leitura a todos!

Tradução: Ricardo Coelho dos Santos


Esse lugarejo [Mafeking], que se afamou no curso de poucas semanas saindo da obscuridade para a fama, é situado sobre a longa linha de estrada de ferro que liga Kimberley, no sul, com a Rodésia, no norte. Caracteriza-se por lembrar uma dessas cidadelas do oeste americano com poucos recursos, mas grandes aspirações. Com seus telhados de ferro ondulado, a igreja e as ruas, que são dos primórdios da civilização Anglo-Céltica em todo o lugar, alguém pode ver as sementes de uma grande cidade no futuro. É um entreposto óbvio do oeste do Transvaal por um lado, e o ponto de partida de todas as tentativas de se vencer o deserto de Kalahari pelo outro. A beira do Transvaal passa a poucas milhas dali.

Não está claro o porquê as autoridades imperiais desejarem segurar esse lugar, pois não há vantagens naturais para ajudar na sua defesa, e sim, fica espalhado numa planície. Uma rápida olhada no mapa mostra que a ferrovia pode ser bloqueada tanto ao norte como ao sul, e uma guarnição pode ser isolada a qualquer ponto a duzentos e cinquenta milhas de qualquer reforço. Considerando que os bôeres podem atravessar e reforçar com homens ou canhões contra o local, parece certo que se eles realmente desejarem tomar posse, eles conseguem. Em circunstâncias comuns, qualquer força que cercar o lugar está fadado em capturá-lo. Mas, ao que parece, a política de vista curta se transformou na maior das sabedorias, devido à extraordinária tenacidade e o desembaraço de Baden-Powell, o oficial no comando.

Coronel Baden-Powell é um soldado do tipo que é extremamente popular entre os britânicos. Um caçador habilidoso e um especialista em vários jogos, havendo sempre alguma coisa esportiva no seu gosto entusiasmado pela batalha. Na Campanha Matabele, ele interceptou os batedores silvícolas e teve prazer em rastreá-los nas suas montanhas nativas, sempre sozinho e à noite, confiando na sua capacidade de pular de pedra em pedra com seus sapatos de solas de borracha para salvar-se em uma perseguição. Havia uma qualidade intelectual na sua bravura que é rara entre os nossos oficiais. Cheio de destreza e recursos, era difícil ele perder seu bom humor, assim como era difícil derrotá-lo. Mas havia outro lado curioso da sua natureza complexa. Os franceses diziam sobre um dos seus heróis: “Il avait cette graine de folie dans sa bravure que les Français aiment” [Há um certo grau de loucura na  bravura dos franceses — tradução aproximada], e essas palavras devem ter sido escritas sobre Powell. Um humor impagável irrompeu-se nele, e o estudante travesso se alternava com o guerreiro e o administrador. Ele enfrentou soldados bôer com traquinagens e piadas como as redes de arame farpado e a trincheira cheia de rifles. A incrível variedade de talento pessoal foi uma das suas características mais marcantes. Desde desenhar caricaturas com as duas mãos simultaneamente ou fazer uma dança escocesa promovendo uma esperança para o povo, tudo o que fazia dava certo; e ele tinha a qualidade magnética que conferia parte de suas virtudes aos seus homens. Esse foi o homem que segurou Mafeking para a rainha.

Numa fase bem inicial, antes da declaração formal de guerra, o inimigo concentrou vários soldados ao oeste, com homens vindos de Zeerust, Rustenburg e Lichtenburg. Baden-Powell, com a ajuda de um excelente grupo de oficiais especiais, que incluíam o Coronel Gould Adams, Lorde Edward Cecil, soldado filho do Primeiro-Ministro da Inglaterra, e Coronel Hore, fizeram o que foi possível para colocar o lugarejo em um estado de defesa. Nisso, ele teve a imensa ajuda de Benjamin Weil, um empreiteiro sul-africano muito conhecido, que mostrou um grande esforço em manter as provisões da cidade. Por outro lado, o Governo Sul-Africano demonstrou a mesma burrice ou traição que foi mostrada no caso de Kimberley, e juntou todas as demandas de canhões e reforços a dúvidas tolas sobre as necessidades dessas precauções. No empenho de suprir essas demandas urgentes, o primeiro desastre pequeno da campanha acabou acontecendo. Em 12 de outubro, um dia após a declaração de guerra, um trem blindado, carregando dois canhões de 7 libras para as defesas de Mafeking, descarrilhou e foi capturado por uma patrulha bôer em Kraaipan, a quarenta milhas ao sul do seu destino. O inimigo bombardeou o trem danificado por mais de cinco horas, até o Capitão Nesbitt, que estava no comando, e seus homens, cerca de vinte pessoas, se renderem. Foi um acontecimento pequeno, mas que ganhou importância por ter sido o primeiro sangue derramado e o primeiro sucesso tático da guerra.

A guarnição da cidade, cuja fama certamente vive na história da África do Sul, não tinha ao todo soldados regulares com exceção do pequeno grupo de excelentes oficiais. Consistiam de tropas irregulares trezentos e quarenta homens do Regimento do Protetorado, cento e setenta policiais e duzentos voluntários, consistindo da mistura singular de aventureiros, jovens, cavaleiros arruinados e desportistas irresponsáveis que tem sido sempre os aventureiros do Império Britânico. Esses homens eram do mesmo tipo daqueles outros natos guerreiros admiráveis que se deram bem na Rodésia, em Natal e no Cabo. Com eles, se juntaram a defesa da guarda municipal que incluíam lojistas, negociantes e moradores voluntários, tudo juntando aproximadamente novecentos homens. A artilharia era fraca ao extremo: duas canhoneiras de sete libras e seis metralhadoras, mas os entusiasmos dos homens e o desembaraço dos seus líderes ajudaram contra quaisquer desvantagens. Coronel Vyvyan e Major Panzera planejaram as defesas, e a pequena cidade comercial logo começou a tomar a aparência de uma fortaleza.

Em 13 de outubro, os bôeres apareceram diante de Mafeking. No mesmo dia, Coronel Baden-Powell retirou dois carregamentos de dinamite da cidade. Elas foram queimadas pelos invasores com o resultado de uma explosão. Em 14 de outubro, as cercas em volta da cidade foram invadidas pelos bôeres. Por causa disso, o trem blindado e um esquadrão do Regimento do Protetorado avançaram para proteger as cercas e fizeram os bôeres recuarem. Um corpo desses retornaram e se posicionaram entre os britânicos e Mafeking, mas duas tropas com as canhoneiras avançaram e os expulsaram bombardeando. Nessa pequena ação corajosa, a guarnição perdeu dois homens, mortos, e teve catorze feridos, mas causaram um dano considerável ao inimigo. Deve-se um grande crédito ao Capitão Williams, Capitão FitzClarence e Lorde Charles Bentinck pela maneira com que conduziram seus comandados; mas se deveria esperar pelo pior, pois se um desastre ocorresse, Mafeking cairia, com sua esquerda sem uma guarnição. Nenhum resultado possível valeria o risco que foi tomado.

Em 16 de outubro, o cerco começou a ficar sério. Nesse dia, os bôeres trouxeram dois canhões de doze libras e o primeiro dos bombardeios intermináveis caíram na cidade. O inimigo se apoderou do suprimento de água, mas a guarnição já tinha escavado poços. Até o dia 20 de outubro, cinco mil bôeres, no comando do formidável Cronje, se juntaram ao redor da cidade. “Rendam-se para evitar sangue”, foi a mensagem. “Quando o derramamento vai começar?”, perguntou Powell. Quando os bôeres já estavam bombardeando a cidade por algumas semanas, o iluminado Coronel enviou uma mensagem dizendo que se eles desejassem, ele imediatamente poderia ser compelido de considerar aquilo como algo equivalente a uma declaração de guerra. Espera-se que Cronje também passou a ter senso de humor ou então ele ficou bastante desnorteado por esse oponente excêntrico como os generais espanhóis ficaram nas venturas de Lorde Peterborough.

[A seguir: Baionetas]

A Justiça e o Escotismo — A Educação Intelectual

Essa é a última parte do livro a “A Justiça e o Escotismo”, explanando a tese do Dr. Ernesto Guimarães.

Um arguto observador nos mandou uma opinião interessante, sobre o ufanismo da época. Realmente, o povo tinha um amor incondicional pelo país e uma preocupação muito forte pelo futuro da nossa nação. Na opinião dos mais lidos escritores, mais aplaudidos políticos e mais seguidos educadores, a vida era bem menos importante que a Pátria, a Honra, a Religião e, nos arriscaríamos até a dizer, a Tradição. Tanto que hoje temos como texto do primeiro artigo da Lei, “a Honra vale mais que a própria vida”. Os tempos de hoje exigem uma revisão desse conceito, mas, na época em que foi escrito, foi universalmente aceito.

Com esse fechamento, esperamos que os leitores tenham apreciado a obra completa.

Boa leitura a todos!


Sobre a educação intelectual, sentimos que no escotismo se reflete o aproveitamento cabal da inteligência da criança.

Ao magistrado, esta parte importante não pode passar despercebida.

Estudando no livro aberto da natureza, — o livro mais sábio, porque foi escrito pela mão de Deus — aprende o escoteiro as lições de que mais tarde se deve utilizar na vida pública.

Os regulamentos, de acordo com a idade, o sexo, o desenvolvimento físico e intelectual, dispõem sabiamente as disciplinas que constituem, nas diferentes graduações, a instrução que lhe deve ser paulatinamente dada. Para aditamento, existem as especialidades, tornando-o apto para o exercício das profissões e para desembaraço maior dos seus pendores ou vocações.

Como nos apraz reiterar, os métodos da escola escoteira provocam admiração geral.

De fato, campo propício para aplicação da escola ativa, a nossa escola se traduz na maior vitória do ensino, em nossos dias.

O escoteiro aprende brincando e temos aí a forma mais produtiva, mais racional, mais eficiente da didática modernizada.

O passadismo truculento do mestre escola sisudo, os condenáveis processos da palmatória, a humilhação das irrisórias orelhas de burro, os incômodos dos caroços de milho nos joelhos, os suplícios de uma indigestão de teorias sovadas, impostas, dentro das estufas de quatro paredões, muitas vezes anti-higiênicos, lá ficaram para trás, fulminados como labéu de uma época de terror nas escolas inquisitoriais.

O bebê de hoje, como costumamos fazer lá em casa, aos nossos filhinhos, ao invés do Tutu-Marambaia, deve adormecer ao som mavioso, canto ou assobio (de preferência canto) do Hino Nacional ou da toada festiva do Alerta, do inolvidável B. Cellini.

Estamos de pleno acordo com a tese do nosso Baden-Powell — A educação pelo amor substituindo a educação pelo temos.

A adaptação da escola ativa, temos de reconhecer, foi uma das mais suntuosas riquezas para o tesouro do ensino.

Claparede expõe com clareza: — A educação tem que ser uma sistematização da atividade, visando fins sociais de adaptação e melhoria do homem, e por isso o próprio saber tem que ser posto ao serviço da ação, tem que corresponder a uma necessidade orgânica e intelectual.

Aqui está o louvor altíssono da educação escoteira.

Ao magistério não pode também repugnar o escotismo, porquanto ele conclui a obrigação do professor. No dia bem-aventurado em que todos assim compreendam, escampos horizontes se hão de abrir à mocidade luzida da nossa terra.

Ernest Young já disse alhures: — O programa do escotismo completa o trabalho da escola.

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O magistrado, que forçosamente tem que ser um patriota, verá que a instituição escoteira é também uma escola apurada de civismo.

Vivendo na natureza, e com ela, o escoteiro se adapta à aventuras e intempéries, endurecendo o seu corpo e fortificando-se numa férrea energia moral, prepara-se para a luta pela vida, formando o caráter, ao mesmo tempo pelo que vê, pelo que observa, pelo que admira, pelo que sente, na pujança da terra que lhe foi berço, encontra a razão de ser ufano do seu país.

Desponta assim no coração escoteiro o amor da pátria.

O culto da bandeira e das instituições da sua terra, ele traz consigo, desde o início da entrada para o movimento e vai levar os frutos dessa aprendizagem abençoada à sociedade, a que ele servirá como um cidadão digno.

Está assim completa a educação escoteira que resolve de um modo generalizado, de um modo satisfatório, de um modo perfeito o problema da criança.

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Desta exposição de motivos, resulta o corolário de que, para serem bem orientados, os serviços de assistência e amparo aos menores devem, a par das providências de ordem judiciária, compreender a adaptação do escotismo como elemento indispensável para uma obra de execução modelar.

Melhorando, pelos cuidados à infância, os elementos componentes da sociedade, a Justiça verá decrescerem os desequilíbrios que conturbam e atacam a ordem reinante.

Assim, progredirá a comunhão em que vivemos, defendida pela instituição do escotismo, que, em última palavra, se pode denominar, em colaboração com a Justiça, um órgão sadio de defesa social.

Pratiquemos o escotismo.

Atentemos nos apelos justos, como este do Supremo Magistrado do Espírito Santo, o exmo. dr. Aristeu Borges de Aguiar, que instituindo oficialmente o escotismo nas escolas, pelo decreto 10.072, de 31 de março do ano que corre, cumpriu brilhantemente a promessa feliz da sua plataforma de governo: — Desejo também estimular e amparar, senão promover, o desenvolvimento do escotismo para incutir no espírito da juventude qualidades varonis e inapreciáveis de moral e civismo. A educação da mocidade deve merecer-nos, de todos, incessantes desvelos para que as gerações do futuro se venham mostrar redimidas dos notórios defeitos que tanto nos deprimem e que só poderão ser expungidos por uma campanha sistemática e generalizada, com carinho, desprendimento e tenacidade.

Demoremos uma reflexão religiosa nestas palavras de incentivo e como representantes da sociedade, sem horror a maiores trabalhos ou responsabilidades. Volvamos os nossos olhares piedosos para as crianças, educando escoteiramente os nossos filhos, formando uma geração forte, para orgulho da raça e que só assim saberá guardar e defender, com toda bravura e honradez, as tradições e as glórias do Brasil. —

CONCLUSÕES

I — A ciência do Direito, estando ligada à Sociologia, ou, como entendemos nós, sendo a própria Sociologia em ação, não pode viver alheada aos fenômenos que nela se refletem; tanto mais quanto, como acontece com o escotismo, encontra nele um auxiliar direto e valioso para o bom equilíbrio das necessidades jurídico-sociais.

II — À Justiça, como órgão dinâmico do Direito, pelas mesmas razões e mais por ser o escotismo uma escola completa e perfeita de regeneração dos costumes, interessa visceralmente a difusão, a propaganda e a adaptação do mesmo.

III — O magistrado, pela certeza de resultados infalíveis, na aplicação nas Leis dos Menores, necessita introduzir o escotismo, como obra complementar de preservação e reforma, por ter nele, além do que podem oferecer as escolas premonitórias, uma educação integral, compreendendo, numa metodologia inimitável, a educação física, moral, intelectual e cívica, restituindo à sociedade, com uma formação proveitosa e útil, os que dela forem segregados.

IV — A sociedade, precisando, para sua própria defesa, de todos os seus elementos componentes, tendo no escotismo uma guardiã avançada dos seus interesses, e no Magistrado, um dos seus mais ardorosos defensores, reclama a preciosa colaboração deste, como cooperador constante e inteligente, em benefício da sociedade mesma, da justiça e da humanidade.

V — Seria trabalho de grande alcance se os Srs. nos regulamentassem e apoiassem, com toda assistência, o escotismo por uma nova feição, instituindo-o oficialmente nos estabelecimentos destinados aos menores, com o auxílio, já se vê, da iniciativa particular.

São José do Calçado, (Espírito Santo) 12 de junho de 1930.

[A seguir: O Cerco de Mafeking ]

A Justiça e o Escotismo — A Educação Escoteira

Entramos na quarta parte da tese “A Justiça e o Escotismo” do Dr. Ernesto Guimarães.

Por mais antiquado seja alguns dos temas aqui expostos, há muitos conceitos que são ainda atuais, mesmo escrito há quase noventa anos.

Assim, o texto nos oferece uma mostra da perenidade do Escotismo.

Infelizmente, são pouquíssimas Unidades Escoteiras Locais no Brasil que podem ter testemunhado essa obra. Grupos Escoteiros ou Seções Autônomas com 90 anos de história são raridades no nosso país.

Fica então o desafio do texto: permitir que o Grupo onde você participa siga a mensagem de longevidade do nosso Movimento Centenário. Que seja mais perene que a ortografia usada no texto original!

Observação: por um equívoco de nossa parte, erramos no texto passado qual seria o título do presente capítulo. Pedimos humildes desculpas.

Boa leitura a todos!


Na criação magistral de Baden-Powell encontrará o magistrado a metodologia perfeita para a formação do infante.

Esse príncipe da educação moderna concebeu uma verdadeira maravilha que bem se pode denominar um indefectível tratado de pedagogia.

Nada faltou, e, no quadro da sua classificação, estão bem defendidos todos os interesses sociais.

Seja-me permitido um parêntese.

Se quisermos penetrar no assunto da educação, vamos encontrá-lo dividido em três capítulos marcantes e essenciais — A Educação Física — A Educação Moral — A Educação Intelectual.

São esses os requisitos, os mais rigorosos, porque, como bem ponderou o dr. Ignácio de Azevedo Amaral, orgulho do escotismo brasileiro: — A obra educativa não pode com efeito ser encarada na desintegração dos seus elementos componentes, pois o seu objetivo é preparar o homem para a vida em sociedade, preparação que tem de ser realizada conjuntamente sobre o tríplice ponto de vista físico, moral e intelectual.

— A educação física pelo escotismo é deveras formidável. O escoteiro vive no campo, refazendo os pulmões sob a influência saudável do ar puro das madrugadas. Os raios solares encontram nele o mais apaixonado apologista da fisioterapia.

A higiene é cuidada com todo escrúpulo para que ele tenha o corpo são e a alma limpa.

Adestro no atletismo, na ginástica, nos desportos, ele exercita os músculos, como os soldados de Esparta.

Nos jogos escoteiros, todos, sem exceção de um só, encontra ele sempre uma razão educacional, apurando a agilidade, a resistência, os sentidos, a memória e a inteligência.

Resumindo:

A atividade do escoteiro — é uma condição essencial à sua própria personalidade.

Escola de jogos, como bem definiu o seu fundador, o escotismo, sob a variante mais pitoresca, mais sedutora, mais envolvente, contribui poderosamente para a formação gradativa, para o desenvolvimento proporcional do corpo, exercitando todos os órgãos e funções co-respectivas, numa regularidade rítmica.

Ademais, no escotismo está solucionada a questão da eugenia que se prende, pelos fenômenos biológicos, ao problema social. [Nota: a eugenia era uma crença comum à época, felizmente superada. O autor mostra mais adiante e em várias partes da tese que o escotismo não está de acordo com tal crença.]

Desta maneira, cresce e se forma o escoteiro para quem por certo não doutrinou o dr. Victor Pauchet: — Não pode haver saúde sem um espírito bem formado; não há verdadeira inteligência nem caráter sólido se estiverem perturbadas as funções do corpo.

— Do ponto de vista moral, aumenta de valor o escotismo.

Não será demais repisar que os fins a que se propõe não ficam adstritos ao aparato bélico dos desfiles ou das formaturas.

Absolutamente.

Antes de se fazer soldado, o escoteiro, para que possa bem servir à pátria, tem que ser o tipo acabado de um verdadeiro varão de Plutarco.

Para desenvolver este tema, assaz dilatado, a intelectualidade ainda terá que enriquecer os depositórios da bibliografia escoteira, afim de desvanecer a má compreensão que ainda predomina entre nós.

A síntese sábia da lei escoteira poderá convencer aos mais céticos, aos mais prevenidos, do alcance dessa bíblia que abrange em dez artigos (é assombroso) o total dos princípios vigorosos que hão de abrir à humanidade as portas de uma confraternização entre todos os povos que habitam o planeta.

Estão ali condensados os preceitos da honra, do dever, da lealdade, da solidariedade, da cortesia, da bondade, da obediência e disciplina, da resignação, da economia e do respeito; enfim, da pureza do sentimento.

O desprendimento, o desapego à vida, constituem um evangelho para o escoteiro, a guiar-lhe os passos, em todas as vicissitudes, em proveito dos seus semelhantes, a quem jamais ele negará, num gesto supremo de renúncia, se tanto lhe for ordenado, o último sopro de sua vida. [Observação: essa filosofia, também muito em moda na época, também já foi superada. Um escoteiro hoje tem deveres para com Deus, para com o Próximo e para Consigo mesmo].

Ninguém poderá nos acusar de romantismo, porque de todas as partes do mundo, e nós nos incluímos, cada dia que se passa, aumenta o martirológio dos sacrificados e é do domínio da publicidade que para mais de quatro mil pessoas, como refere Velho Lobo, tem sido salvas por esses heróis da Cavalaria moderna.

Um dos encantamentos que mais nos confortam é a aplicação do almejado nivelamento das classes. Entre o rico e o pobre, o branco e o preto, o doutor e o operário, o general e o soldado, o almirante e o marinheiro, não sabemos distinguir. Somos todos iguais. Todos nos confundimos como irmãos.

Esta maneira sublime de exaltar os humildes foi um dos mais belos atrativos que nos arrastaram, porque sempre entendemos que da ferramenta do operário, jamais se distanciou o nosso grau universitário. Fomos, somos e seremos pela igualdade, dentro da lei, pois, nos seus serviços, nas provas mais duras, a nossa mocidade ardorosa se tem batido pelos desejos da paz perpétua entre os homens. Para dizer enfim da estrutura moral do escoteiro, interrompendo o curso destas considerações, eu me permito recordar, numa ternura de saudade, as incisivas expressões do grande Bilac: — O escotismo forma homens e, ainda mais, heróis. É a heróicultura. Em cada escoteiro no último grau da iniciação existe um “agenor” no sentido do vocábulo grego: — Homem de coração.

[A seguir: A Justiça e o Escotismo — A Educação Intelectual