A Justiça e o Escotismo — A Educação Escoteira

Entramos na quarta parte da tese “A Justiça e o Escotismo” do Dr. Ernesto Guimarães.

Por mais antiquado seja alguns dos temas aqui expostos, há muitos conceitos que são ainda atuais, mesmo escrito há quase noventa anos.

Assim, o texto nos oferece uma mostra da perenidade do Escotismo.

Infelizmente, são pouquíssimas Unidades Escoteiras Locais no Brasil que podem ter testemunhado essa obra. Grupos Escoteiros ou Seções Autônomas com 90 anos de história são raridades no nosso país.

Fica então o desafio do texto: permitir que o Grupo onde você participa siga a mensagem de longevidade do nosso Movimento Centenário. Que seja mais perene que a ortografia usada no texto original!

Observação: por um equívoco de nossa parte, erramos no texto passado qual seria o título do presente capítulo. Pedimos humildes desculpas.

Boa leitura a todos!


Na criação magistral de Baden-Powell encontrará o magistrado a metodologia perfeita para a formação do infante.

Esse príncipe da educação moderna concebeu uma verdadeira maravilha que bem se pode denominar um indefectível tratado de pedagogia.

Nada faltou, e, no quadro da sua classificação, estão bem defendidos todos os interesses sociais.

Seja-me permitido um parêntese.

Se quisermos penetrar no assunto da educação, vamos encontrá-lo dividido em três capítulos marcantes e essenciais — A Educação Física — A Educação Moral — A Educação Intelectual.

São esses os requisitos, os mais rigorosos, porque, como bem ponderou o dr. Ignácio de Azevedo Amaral, orgulho do escotismo brasileiro: — A obra educativa não pode com efeito ser encarada na desintegração dos seus elementos componentes, pois o seu objetivo é preparar o homem para a vida em sociedade, preparação que tem de ser realizada conjuntamente sobre o tríplice ponto de vista físico, moral e intelectual.

— A educação física pelo escotismo é deveras formidável. O escoteiro vive no campo, refazendo os pulmões sob a influência saudável do ar puro das madrugadas. Os raios solares encontram nele o mais apaixonado apologista da fisioterapia.

A higiene é cuidada com todo escrúpulo para que ele tenha o corpo são e a alma limpa.

Adestro no atletismo, na ginástica, nos desportos, ele exercita os músculos, como os soldados de Esparta.

Nos jogos escoteiros, todos, sem exceção de um só, encontra ele sempre uma razão educacional, apurando a agilidade, a resistência, os sentidos, a memória e a inteligência.

Resumindo:

A atividade do escoteiro — é uma condição essencial à sua própria personalidade.

Escola de jogos, como bem definiu o seu fundador, o escotismo, sob a variante mais pitoresca, mais sedutora, mais envolvente, contribui poderosamente para a formação gradativa, para o desenvolvimento proporcional do corpo, exercitando todos os órgãos e funções co-respectivas, numa regularidade rítmica.

Ademais, no escotismo está solucionada a questão da eugenia que se prende, pelos fenômenos biológicos, ao problema social. [Nota: a eugenia era uma crença comum à época, felizmente superada. O autor mostra mais adiante e em várias partes da tese que o escotismo não está de acordo com tal crença.]

Desta maneira, cresce e se forma o escoteiro para quem por certo não doutrinou o dr. Victor Pauchet: — Não pode haver saúde sem um espírito bem formado; não há verdadeira inteligência nem caráter sólido se estiverem perturbadas as funções do corpo.

— Do ponto de vista moral, aumenta de valor o escotismo.

Não será demais repisar que os fins a que se propõe não ficam adstritos ao aparato bélico dos desfiles ou das formaturas.

Absolutamente.

Antes de se fazer soldado, o escoteiro, para que possa bem servir à pátria, tem que ser o tipo acabado de um verdadeiro varão de Plutarco.

Para desenvolver este tema, assaz dilatado, a intelectualidade ainda terá que enriquecer os depositórios da bibliografia escoteira, afim de desvanecer a má compreensão que ainda predomina entre nós.

A síntese sábia da lei escoteira poderá convencer aos mais céticos, aos mais prevenidos, do alcance dessa bíblia que abrange em dez artigos (é assombroso) o total dos princípios vigorosos que hão de abrir à humanidade as portas de uma confraternização entre todos os povos que habitam o planeta.

Estão ali condensados os preceitos da honra, do dever, da lealdade, da solidariedade, da cortesia, da bondade, da obediência e disciplina, da resignação, da economia e do respeito; enfim, da pureza do sentimento.

O desprendimento, o desapego à vida, constituem um evangelho para o escoteiro, a guiar-lhe os passos, em todas as vicissitudes, em proveito dos seus semelhantes, a quem jamais ele negará, num gesto supremo de renúncia, se tanto lhe for ordenado, o último sopro de sua vida. [Observação: essa filosofia, também muito em moda na época, também já foi superada. Um escoteiro hoje tem deveres para com Deus, para com o Próximo e para Consigo mesmo].

Ninguém poderá nos acusar de romantismo, porque de todas as partes do mundo, e nós nos incluímos, cada dia que se passa, aumenta o martirológio dos sacrificados e é do domínio da publicidade que para mais de quatro mil pessoas, como refere Velho Lobo, tem sido salvas por esses heróis da Cavalaria moderna.

Um dos encantamentos que mais nos confortam é a aplicação do almejado nivelamento das classes. Entre o rico e o pobre, o branco e o preto, o doutor e o operário, o general e o soldado, o almirante e o marinheiro, não sabemos distinguir. Somos todos iguais. Todos nos confundimos como irmãos.

Esta maneira sublime de exaltar os humildes foi um dos mais belos atrativos que nos arrastaram, porque sempre entendemos que da ferramenta do operário, jamais se distanciou o nosso grau universitário. Fomos, somos e seremos pela igualdade, dentro da lei, pois, nos seus serviços, nas provas mais duras, a nossa mocidade ardorosa se tem batido pelos desejos da paz perpétua entre os homens. Para dizer enfim da estrutura moral do escoteiro, interrompendo o curso destas considerações, eu me permito recordar, numa ternura de saudade, as incisivas expressões do grande Bilac: — O escotismo forma homens e, ainda mais, heróis. É a heróicultura. Em cada escoteiro no último grau da iniciação existe um “agenor” no sentido do vocábulo grego: — Homem de coração.

[A seguir: A Justiça e o Escotismo — A Educação Intelectual

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A Justiça e o Escotismo — O Futuro do Brasil

O paralelismo que o autor faz entre a Justiça e o Escotismo, eleva o nosso Movimento a um patamar tão elevado que, por ele, poderíamos considerar nossa prática uma ciência filosófica.

E por que não? A Educação Escoteira deve ser levada tanto na prática, com aplicações técnicas em acampamentos e nos jogos, como na teoria, como a compreensão da Lei e da Promessa, que se aprofunda de acordo com o grau de maturidade de cada um.

Então, talvez Ernesto Guimarães esteja precisamente correto nessa comparação. Com certeza, o errado seria reduzir o Escotismo a um mero clube de diversão para jovens.

Boa leitura a todos!


O nosso ponto de partida, o alarme dos males sociais e o clamor das estatísticas universais estão indicando: É o combate decidido, sem tréguas, à vadiagem na primeira infância. A mendicidade abusiva e a exploração do trabalho do menor também entram no conjunto.

O contágio pernicioso das ruas arrasta o menor a percorrer a escala degradante de todos os vícios, de todos os defeitos. Desfila então o cortejo lúgubre das misérias que tornam o homem inutilizado para preencher o seu lugar como cidadão prestante e ordeiro. Passemos pela rama: O jogo da bola, atormentando os pacatos transeuntes, as más companhias, o êxodo das escolas, a iniciação perigosa e fatalmente funesta nos vícios, o alcoolismo, o tabagismo; a tuberculose, a depressão física alimentada pela verminose, pelo impaludismo, pela ancilostomíase, a anulação do espírito, a indolência prematura, a incivilidade, o calão desabrido; sem contarmos, eu tremo de referir, os casos escabrosos de corrupção que chegam escandalosamente ao estado horrendo de perversão sexual. Perdido o respeito de si próprio, envolvido por uma atmosfera deletéria, cresce o menor desamparado, ferreteado para a sina desgraçada e negra de figurar no cômputo dos anais judiciários ou dos registros hospitalares. Podemos também referir os casos públicos de exploração de menores para o uso de mendicidade, acenando-lhes pela inércia o caminho do latrocínio; ou então a exploração horrível com que se reduzem as energias do menor, a quem se entrega um tabuleiro, premiando-lhe os serviços de andarilho com uma boa sova no ajuste da féria. Aparecem aí os casos que arrepiam, mesmo nos serviços domésticos, dos maus tratos, dos espancamentos de que dão notícia os arquivos dos cartórios criminais. Há para considerar os vendedores de jornais e ambulantes que também nada podem aproveitar em misteres prejudiciais. O mau cinema entra no rol dos perigos referidos.

Será justo, será plausível deixar-se assim penar, perecer um inocente, sem culpa sua?

Nunca.

Seria crime maior, seria barbaridade, seria até, por que não dizê-lo, falta de caridade cristã!

Pois bem, o escotismo evita, sem maior trabalho, todas estas desventuras. A frequência assídua ao grupo escoteiro local retira de vez o menor da rua e dos mais nocivos lugares, e as preocupações dos seus estudos, ao mesmo tempo que ilustram o seu espírito, cultivam-lhe a higiene da alma. Releva notar que as organizações escoteiras facilitam a colocação dos meninos ou meninas nas escolas ou nos empregos úteis, dando-lhes boa diretriz na vida.

Por outro lado, a fiscalização do Juiz resulta assim aplainada, extreme de maiores entraves.

Em cada escoteiro, ele encontra espontaneamente um devotado Comissário de Vigilância, porque, convencido dos benefícios que recebe, ele pensa mais nos outros do que em si mesmo e procura trazer ao seu grupo os refratários ou transviados.

Cumpre ressaltar, que da beleza moral desta obra grandiosa promana o calor vivificante a aquecer os ideais que alimentam os impulsos nobres das justas reivindicações.

O escotismo não conhece privilégios de classes, sectarismo ou raças; e todas as crianças, de todos os sexos e idades, nele podem ingressar; tanto importa dizer estar estabelecido o princípio inconcusso da fraternidade humana.

De como o magistrado sentirá os efeitos da aplicação do escotismo à criança, eu cedo a palavra ao grande defensor da nossa causa, dr. Mozart Lago: — O escotismo é um sistema de educação integral, concebido sobre as bases de um completo e cuidadoso estudo de Psicologia infantil.

Outra virtude é o da aproximação íntima dos jurisdicionados, pela convivência também dos pais, em visitas ou nos acampamentos de família, democratizando-se o Juiz, como é preciso que se faça, em bem da própria justiça e sem quebra da majestade do cargo e da autoridade.

Como acabamos de ver, mesmo recolhido, ao menor se deve proporcionar a alegria e a felicidade de ser escoteiro, em seu benefício, no da sociedade e do país.

Gravai bem as palavras do dr. Attílio Vivácqua, precursor do movimento nacional: — O futuro do Brasil será o trabalho de uma geração de escoteiros.

 

[A seguir: A Justiça e o Escotismo — A Educação Escoteira

A Justiça e o Escotismo — Gloriosa Falange

Continuamos com a segunda parte da tese “A Justiça e o Escotismo” do Dr. Ernesto Guimarães.

Algo que chama muito a atenção nesses textos antigos é o uso de expressões e palavras que não são mais do nosso uso, mas que continuam no dicionário! Por ser um tratado jurídico, as palavras ficam mais complicadas ainda.

Foi realmente uma diversão buscar as expressões mais complicadas no “Houaiss”, mas, como todo aprendizado, valeu a pena.

Boa leitura a todos!


Se o Direito como força coarctora ou como parte integrante, vive, em consórcio perene, com a Sociologia, a Justiça, que na frase feliz de Ingenieros — É o equilíbrio entre a moral e o direito —, dela também não pode viver separada. Conseguintemente, pelas mesmas razões já expendidas, à Justiça interessa visceralmente o escotismo, sob todos os aspectos e feições, à vista do coeficiente apreciável que lhes trazem os resultados infalíveis, assegurando na órbita social, um trabalho fecundo de proventos reflexos à utilidade jurídica.

A fórmula eternizada do suum cuique tribuere [dar a cada um o seu próprio — nota do escriba], em todas as suas manifestações previstas ou imprevistas, não encontrou mais acolhedora guarida do que nessa instituição santa — o escotismo —, em cujos dogmas basilares assentam, como pedra de toque, as normas imutáveis do bom e do justo. É portanto de boa lógica proclamar-se que o órgão que exercita o Direito deve intervir diretamente na execução do belo programa escoteiro.

Muito mais do que simula aparentemente, a Justiça tem no escotismo, como fator natural, um auxiliar dos mais fortes, dos mais poderosos, para objetivo último das suas cogitações e dos seus fins.

No aparelho judiciário empolga, pela respeitabilidade das suas elevadíssimas funções, a figura veneranda do magistrado, em cujo sacerdócio repousa a confiança tranquila das garantias individuais.

Para esses vultos eminentes, a quem foi cometida a alta missão de julgar, irmãos que temos nesta vida verdadeiramente apostólica, é que muito especialmente, com o afeto dos mais lídimos, oferecemos a homenagem deste modesto trabalho.

Fique, porém, desde já explicado, que nos não seduziram intentos malévolos de censura ou esnobismo, mas o propósito honesto de mostrar, com os frutos de observação própria, as vantagens de excelência que apresenta o escotismo nos serviços de assistência, amparo e proteção aos menores.

Investidos que fomos na magistratura, compreendemos que a questão da infância nos reclamava todo cuidado. Era preciso observar para praticar.

Alguma cousa de não menor importância desafiava a nossa curiosidade de indagador pertinaz.

Foi assim, que no exercício de uma das modalidades da função social do Juiz, na aplicação das leis concernentes aos menores, buscamos os meios mais praticáveis e mais viáveis para obtermos a salvaguarda dos seus interesses, chegando à convicção plena de que o escotismo, ainda uma vez, resumia um código de sabedoria, a ser aplicável como complemento de todas as leis referentes aos menores.

Sentimos então a força do contato do Juiz com o Sociólogo. Carlos Maximiliano, de saudosa memória, nos confortou com todo o estímulo, ante sua alta lição dizendo: — que o magistrado procede como intermediário entre a letra morta dos códigos e a vida real, apto a plasmar com a matéria prima da lei, uma obra de elegância moral e útil à sociedade.

Eis, em duas palavras, a nossa profissão de fé escoteira; e hoje, orgulhosos de pertencermos à gloriosa falange, ao lado da toga, bendizemos o nosso calção escoteiro, porque sentimos, com o entusiasmo dos crentes, que com ele, mais valorizamos ainda a integridade da nossa judicatura.

Os Governos da República e dos Estados, decretando a regulamentação dos serviços de assistência e amparo à infância delinquente e abandonada prestaram serviços de monta.

Torna-se preciso no entanto encarecer, que o trabalho ingente e valioso dos Governos não pode satisfazer, por si só, as exigências de ordem prática.

Os asilos e os patronatos, inobstante a sua utilidade reconhecida, não encerram o acervo complexo e vasto das necessidades iminentes da infância, porque as escolas de reforma, mais do que de assistência material, precisam de assistência moral. A própria penologia, está a exigir, quanto antes, os meios que facilitando aos encarcerados a regeneração, pelos métodos educativos, os possa restituir à sociedade, integrados na consciência do seu aproveitamento social.

Para corrigir o menor, não é bastante guardá-lo e fazê-lo trabalhar. É preciso mais. A escola de reforma tem que concluir a sua tarefa fazendo extinguir no menor as tendências de predisposição para o crime e para os defeitos, proporcionando-lhe uma escola de reeducação sistematizada.

Outro ponto capital, é que também aos menores que não são abandonados se devem estender as nossas providências, porque, por mais zelosa que seja a educação da família, por mais escrupulosa que seja a atitude dos pais ou responsáveis, um controle completo não pode, embora todos eles se esforcem, ser procedido de maneira absoluta.

Como preito de reverência e de profunda admiração, eu invoco a experiência douta do grande general Júlio César que foi o primeiro a compreender o valor do escotismo como escola de preservação e reforma e que nos assombra, por um exemplo notável, escrevendo na direção da Colônia Correcional, uma das páginas mais sugestivas e mais vibrantes que elevam a cultura jurídica e cívica da nossa pátria.

Cabe aqui anunciar que a iniciativa particular nos deve prometer o muito do seu apoio para consecução dos fins colimados. Não devemos cruzar os braços, numa impassibilidade comprometedora, esperando se desobrigue só o Estado dos árduos e onerosos encargos para realização desta campanha humanitária.

O nosso patriotismo nos deve compelir à consciência dos deveres sagrados que temos a cumprir.

Salvemos a criança e tudo estará salvo.

A figura impressionante do íntegro Juiz Mello Mattos, exemplificou, como templário nesta peleja de edificação. Ouçamos-lhe o grave conceito: — É o menor um “valor social” para o Estado, porque na criança é que repousa a grandeza dos povos, a prosperidade das nações e o progresso da humanidade.

À míngua do aparelhamento necessário, o magistrado se obriga procurar os meios ao seu alcance, como sucedâneos recomendáveis para superar óbices que se apresentam, numa proporção assustadora, tolhendo-lhe a desenvoltura de sua ação proficiente.

Para inaugurar um regime de preservação garantida não vemos como a introdução do escotismo, cujo sistema sobre-excede aos métodos mais científicos, mais modernos, das escolas premunitivas.

A nossa observação neste particular, formou cabedal pródigo, pela abundância dos casos recolhidos aos nossos arquivos e aos nossos secretos conhecimentos. Na organização da ficha escoteira temos um verdadeiro cadastro de técnica informativa, investigatória e de identificação.

[A seguir: A Justiça e o Escotismo — O Futuro do Brasil]

A Justiça e o Escotismo

Apresentamos aqui uma tese escrita em 12 de junho de 1930 pelo Juiz de Direito, Dr. Ernesto Guimarães para o Congresso Luso Brasileiro.

Essa tese gerou um livreto publicado pela Federação Espírito-Santense de Escoteiros e hoje essa obra é uma raridade que nos foi gentilmente cedida pela Biblioteca do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, através do delegado Dr. Marcos Jager.

Ernesto da Silva Guimarães foi Juiz, chegou a ser Desembargador, além de poeta e teatrólogo. No Movimento Escoteiro, foi responsável pela Tropa número 6, Aymorés, e da Alcatéia número 5, ambas em São José do Calçado, ES. Fez parte da equipe instrutora do primeiro Curso para Chefes Escoteiros registrado no estado, em 30 de junho do mesmo ano em que ele lançara a tese. O diretor do Curso foi Gabriel Skinner.

E aqui está a tese, colocada integralmente no blog da Patrulha Jaguatirica, em várias etapas. Originalmente, está em ortografia etimológica. Mas traduzimos para nossos queridos leitores!

Boa leitura a todos!

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À minha esposa —       Dulce

Aos meus filhinhos —

Dulcy

Dylce-Maria

Fernando-Ernesto

O meu pensamento e o meu afeto.

Ernesto

A JUSTIÇA E O ESCOTISMO

A ciência do Direito, segundo a concepção hodierna, compreende o estudo dos fenômenos que interessam, sob uma forma física individualizada ou coletiva, a organização social. Assim considerando, foi o que o prof. Groppali entendeu proclamar o Direito como — A resultante de várias forças sociais em conflito e conjuntamente como produto da média das ideias, emoções e paixões comuns a um determinado grupo de indivíduos. A nossa opinião é desassombrada e não teme a crítica porque reflete o nosso sentir; entendemos, por conta e risco próprios, que o Direito nada mais é do que a própria Sociologia em ação contínua.

É bem de ver que onde quer que apareça, muito embora sob a forma mais rudimentar, um núcleo, denotando uma comunhão organizada ou por organizar, surge de pronto o Direito, para tutela, para garante dos vínculos obrigacionais consequentemente correlatos.

Devem, portanto numa ligação estreita, reciprocamente utilitária caminhar o Direito e a Sociologia, pois força é deduzir-se, a priori, das necessidades de uma, exsurge a força coativa do outro, para regulamentação dos reclamos da coexistência humana, a influir de modo precípuo na marcha evolutiva dos povos politicamente organizados.

E dessa conciliação obrigatória, respeitando o traçado das regras exigidas, recebendo o influxo da ética, afirmam-se as diretivas que atuam para determinante dos meios assecuratórios à ordem imprescindível.

Não basta porém que o Direito apareça e se atenha estático, sem atender ao apelo invencível com que a Sociologia o desperta para o objetivo, sempre disputado, da perfectibilidade.

Impõe-se a sua evolução, decorrente do império das circunstâncias erradas e desenvolvidas no cenário, onde se agitam multiformes, as aspirações progressistas do homem, tentado pela miragem eviterna da civilização.

Só assim, na eficácia de um dinamismo permanente, cumprirá o Direito o substrato  da sua finalidade, provendo, pelos auspícios de uma vigilância rigorosa, as deficiências que clamam por um amparo, talvez por um reparo e sempre por uma proteção imediata.

Reside aí o embasamento dessa coluna que afrontando a injúria dos tempos e atravessando a noite dos séculos, vem dizer à contemporaneidade, do valor construtivo dessa disciplina, pioneira de todos os povos, luzeiro de todas as eras, a derramar iluminuras, numa alvorada sempre renovadora de conjunturas acumuladas pela humanidade que avança.

Claro se torna, termos na apreciação do fenômeno jurídico, o efeito nascido de uma causa profundamente social.

Dos recursos inexauríveis da psicologia, opera o jurista a transformação das doutrinas retardatárias, revolucionando, derrubando, para construir melhor, para reformar melhorando, os arcabouços arruinados das teorias e praxes que falharam.

Quem desconhece por ventura as arrancadas destemerosas da Criminologia, de cuja compreensão antiga, tornada inválida, sobram apenas as cinzas cultuadas do classicismo, relegado ao Panteão decorativo da arqueologia jurídica?

Quem não se apercebeu ainda da influência auspiciosa nas reformas dos códigos de todas as nações cultas, onde os institutos, os mais vetustos, os mais endurecidos, sofreram pelo golpe de aconselhadas experiências, inovações, modificações, revogações oportunas, em bem dos interesses atuais?

Donde, aferir-se que o Direito marcha com a Sociologia, e, na integralização deste ponto harmônico, evolui, visando numa projeção fulgurante, a felicidade de quantos a ele vivem subordinados.

Aceitas as premissas preliminarmente estabelecidas, queremos concluir que o Direito não pode viver estranho, separado, indiferente, alheado de todo movimento que interessar possa à sociedade, menos ainda quando, num trabalho de utilíssima e valiosíssima cooperação, para melhor equilíbrio da ordem jurídico-social, existe uma instituição beneficiária, por todos os títulos vitoriosa, qual a do escotismo, fundada por Baden-Powell.

É portava, necessários que todos os pontífices, os mestres, os estudiosos, os militantes, os a quem conferiu a sorte a glória de se alistarem para a defesa do templo augusto de Themis, venham, sem mais tardança, em proveito da causa coletiva, colaborar conosco nesta obra de aperfeiçoamento.

O escotismo, bem o sentiu o ilustre comandante Benjamin Sodré, o nosso querido Velho Lobo, ao escrever em seu “Guia do Escoteiro”: — É uma escola de educação que, atraindo as crianças, por meio de jogos divertidos, desenvolve-se física, moral e intelectualmente: —

Nem só quando a Pátria está em perigo é que devemos gritar para que nos acudam os deuses todos do Olimpo.

Faz-se prudente, prevenirmos as surpresas dolorosas da invernia, recolhendo zelosamente ao celeiro do nosso patrimônio, as reservas providenciais com que nos dias certos das incertezas, havemos de combater as crises que nos assoberbam, num assalto irremediável.

Não percamos tempo e tratemos com toda urgência, do problema máximo, de cuja solução exclusiva, dependem as forças vivas da nacionalidade.

Cuidemos com todo especial carinho, da criança, e esperemos depois, tranquilos, as fartas recompensas do futuro.

Se promovermos, com a devida previdência, o caldeamento dos caracteres infantis, plasmando-os numa virilidade resistente, teremos praticado uma ação, por sem dúvida, altamente meritória, a suprir os descalabros de que tanto nos queixamos e que tanto nos fazem sofrer.

É necessário, porém, um cunho de execução prática, pois que as palavras desempenhadas de fatos decisivos, jamais logram os desígnios de uma compensação radical.

O trabalho avulta.

Todavia, empregados todos os elementos debaixo de uma bandeira de concórdia, unidos por um sentimento de idealismo realizador, conseguiremos abrandar e vencer as asperezas e os rigores dessa tarefa penosa, mas sublime, entre quantas que mais o sejam.

A chave do problema culminante, intransferível, reside no empenho resoluto de executarmos um programa de regeneração dos nossos costumes, buscando incutir no espírito das gerações novas, a necessidade premente de uma cuidadosa preocupação com os preceitos da sã moral.

A perspectiva de melhores dias e mais favoráveis destinos só nos poderá animar quando nos convencermos, uma vez por todas, de que o progresso não está incompatível com o paralelismo dos hábitos mobilizadores.

Caminhemos, pois, encorajados, fortalecidos pelo fervor das crianças otimistas, abroquelados por uma juventude sadia que nos conduzirá, numa jornada de bênçãos e de flores, nos domínios das esperanças consoladoras.

Lutemos, sem desfalecimentos, porque na luta encontraremos o êxito seguro de todos os nossos triunfos.

Meditemos, com a prudência dos acautelados, sobre a grandeza do torrão pátrio e, desprendidos, na exaltação dos sonhos mais ridentes, paguemos de boa vontade, o tributo suave do nosso concurso, em prol da coletividade em que vivemos.

A egolatria tem sido o câncer mortífero a espalhar, num extermínio caliginoso, a ruína dos povos. Apliquemos a terapêutica enérgica do altruísmo, a opor-se salutarmente contra a ferida maldita.

Que o pão nosso de cada dia, partido em pedaços iguais, seja dado de bom coração, àqueles que à nossa porta choram por uma migalha.

Para tudo se conseguir, só um remédio eficaz merece indicado. Insistimos. Olhemos a criança, em cuja salvação se devem nutrir todos os nossos anseios de verdadeiros patriotas.

 [A seguir: A Justiça e o Escotismo — Gloriosa Falange]

Maria Pérola e a volta às aulas

Essa é a última parte da saga da Chefe Maria Pérola Sodré ante o trágico incidente do Gran Circo Norte-Americano em 1961. Outras histórias estão no livro de Mauro Ventura, “O Espetáculo mais triste da Terra”, donde extraímos somente a parte que se refere à nossa grande Companheira e Líder. Recomendamos enfaticamente a leitura integral dessa obra.

O que veremos agora é que nem uma pessoa nacionalmente conhecida, como ela já era na época, filha do Almirante Benjamin Sodré, que foi inclusive um famoso jogador do Botafogo do Rio de Janeiro, responsável, inclusive, pelo título de “O Glorioso” ao time… Mesmo sendo ela figura de destaque do Escotismo mundial, ela não está acima da sua vida secular, com preocupações de emprego, chefes no serviço e tantas outras coisas mundanas às quais estamos sujeitos.

Mesmo assim, ela não deixou de ser uma Escotista de valor, ou mesmo uma professora. Confira:

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Quando as aulas recomeçaram, ela ia três vezes por dia visitar as vítimas. Madrugava no hospital antes de seguir para o primeiro emprego. No Antônio Pedro, aproveitava para ensinar os pacientes. Passava a lição de português e matemática, corrigia exercícios, informava notas e saía para dar aula. À tarde, comia a merenda que tinha levado, deixava o colégio e voltava para a enfermaria infantil. Cumprimentava os doentes, brincava um pouco, comentava os deveres escolares, passava mais lições e partia para a outra escola. À noite, antes de retornar para casa, ia novamente fazer companhia às crianças hospitalizadas.

Um dia ela chegou um pouco mais tarde ao Santa Bernadete. Saíra do hospital, pegara um táxi e estaria no trabalho no horário caso o pneu do carro não tivesse furado. Exigente com a pontualidade, correu pela avenida, mas, compreensivelmente, demorou-se um pouco mais do que o costume. Não escapou da repreensão do diretor:

— A senhora está chegando atrasada!

— É que estou vindo lá do Antonio Pedro. O pneu do táxi furou — tentou justificar-se.

— Não tenho nada com isso — cortou seu chefe. — Seu dever é aqui, dando aula.

Dona de princípios rígidos, assentados no tripé formado pela Igreja, pelo escotismo e pelo magistério, ela concordou. De três em três meses, ainda arrumava tempo para doar sangue às vítimas. A entrega de Maria Pérola sensibilizava tanto os médicos que eles permitiam que entrasse na sala de cirurgia para acompanhar os curativos. Sabiam que sua presença aliviava o sofrimento das crianças. Ela vestia seu avental de enfermagem por cima do uniforme e confortava os pacientes.

— Estou aqui perto — dizia.

Na hora da anestesia, os médicos a liberavam para sair. Mas ela não arredava pé.

— Não, eu disse que ficava, vou ficar. Dei minha palavra. Mesmo que eles não saibam que estou aqui, eu sei.

Eram tantos curativos que os médicos tiveram que reduzir as anestesias. Maria Pérola pensou numa forma de amortecer os suplícios. Ao entrar na sala de cirurgia, dizia à criança:

— Me dá a mão que sua dor passa para mim.

Na hora em que o cirurgião começava os trabalhos, a chefe dos lobinhos fazia caretas e fingia queixar-se:

— Ai, tá doendo.

Foi Maria Pérola quem convenceu Vasti, mãe de Nilson Rodrigues Bispo, de nove anos, de que era necessário amputar a perna do menino. O pai era da Marinha e estava viajando. Desesperada, ela se recusou a autorizar a cirurgia.

— Mandar cortar a perna do meu filho?! — horrorizou-se.

A mãe estava irredutível. Mas o garoto morreria se não operasse. Não podiam mais protelar. Maria Pérola lembrou-se de uma colega de escola de seu filho, que tinha perdido a perna num acidente de bonde uma década antes, aos sete anos. A adolescente não se privava de nada. Jogava vôlei e basquete, andava de bicicleta, montava a cavalo e até ia à praia. Tirava a prótese, deixava a perna mecânica na areia, pulava até a água e nadava. Seria a melhor pessoa para convencer a mulher e acabar com o impasse. Telefonou, explicou o problema e pediu que fosse à enfermaria. A moça chegou ao hospital, andou com desenvoltura de um lado para o outro e falou com algumas crianças internadas. Em seguida, aproximou-se do leito do garoto e conversou com Vasti. Maria Pérola observava tudo sem se manifestar. Depois de algum tempo, virou-se para a mãe de Nilson e disse:

— Você sabia que essa menina aqui perdeu a perna até acima do joelho?

Diante do espanto da mulher, a jovem levantou um pouco a saia, que ia até o tornozelo, mostrou a prótese e explicou como funcionava.

— Eu tenho uma perna para o dia a dia e uma perna especial, mais caprichada, para as festas — acrescentou. — Você percebeu que eu tinha uma perna assim? Não? Pois é, ninguém percebe.

A mulher se convenceu e assinou a autorização para a cirurgia do filho, o mesmo menino que receberia dias depois a visita do presidente João Goulart. Até hoje, aos oitenta anos, Vasti atormenta-se com a decisão.

— Ela carrega esse peso — diz Nilson. — Já falei mil vezes: “A senhora não autorizou amputarem a minha perna. A senhora autorizou salvarem minha vida. Eu estava com gangrena e morreria em poucas horas”.

Ele havia entrado em coma pouco após a internação. Quando despertou, quase trinta dias depois, já estava sem a perna. A história de Nilson é um exemplo de como o nome do circo atraiu espectadores, que se equivocaram ao imaginar sua origem norte-americana.

— Meu pai tinha visto esse circo em Nova York e nos falava: “Se um dia ele vier ao Brasil, vou leva-los” — lembra. — Era um dos maiores do mundo, foi lá que rodaram o filme O maior espetáculo da Terra.

[Observação: “O Maior Espetáculo da Terra”, filme que inspirou o então menino Steven Spielberg a fazer cinema, foi produzido pelos circos Ringling Bros. Circus e Barnum & Bailey Circus. Apesar de ser uma propaganda em forma de romance, é um belo filme que vale a pena ser assistido com a família.]

Assim, quando o Gran Circo, que jamais havia passado pelos Estados Unidos, chegou a Niterói era a hora de cumprir a promessa. Só que, na véspera, no sábado de manhã, o pai de Nilson deu uma topada no quintal. O dedo inchou e o passeio foi suspenso. Mas Nelson, primo do menino, insistiu e convenceu o tio a deixá-los ir. Compraram ingressos para a segunda sessão, às 18h. Aguardavam na fila quando, a quinze minutos do fim da matinê, resolveram entrar para garantir lugar. Falaram com o porteiro, que liberou a passagem antecipada dos dois. Ficaram de pé, atrás das cadeiras numeradas, até que um homem se levantou nas arquibancadas, apontou para cima e gritou:

— Fogo!

Nilson conseguiu escapar, mas, do lado de fora, deu por falta do primo e voltou para resgatá-lo. Ficou preso em meio a outras pessoas, até ser salvo pelos bombeiros. No pronto-socorro de São Gonçalo, ainda conseguiu dar o nome e o endereço, e pediu que avisassem seu pai que estava vivo. Mais tarde, foi removido para o Antônio Pedro, já em coma. A exemplo de Marlene Serrano, não teve que seguir nenhuma dieta. Estava numa lista de desenganados, junto a pacientes como Tomaz Carvalho e Sérgio Tanaka. Uma presença assídua entre os visitantes era seu tio Jessé, também com nove anos, irmão de Vasti. Quase vinte anos depois, em 1980, Jessé se tornaria conhecido no país inteiro ao ganhar o prêmio de melhor intérprete no festival MPB/Shell da Globo com a música “Porto solidão”. Nilson passou oito meses no hospital. Acostumou-se tanto ao ambiente e aos novos amigos que teve dificuldades em retornar para casa. Quando chegou à portaria do Antônio Pedro, não queria sair. Acabou indo para casa, mas estranhou. Passou o fim de semana com a família e voltou para o hospital, onde ficou mais uma semana. Após um período de adaptação, saiu de vez.

Maria Pérola nunca recebeu um centavo. E se lhe tivesse sido oferecido, não teria aceitado. Foram quinze meses de abnegação quase integral. Ficou até que o último paciente, Tomaz Carvalho, tivesse alta. Ela foi um caso extremo de entrega. Mas outros personagens também se destacaram, como Carmen Barilli.

 [A seguir: A Justiça e o Escotismo]

Maria Pérola e os novos Escoteiros

Essa é a continuação da saga da Chefe Maria Pérola Sodré ante a tragédia do Gran Circo Norte-Americano em 1961, narrado pelo jornalista Mauro Ventura na sua obra “O Espetáculo mais triste da Terra”.

O que ainda não foi falado é que o Hospital Antônio Pedro estava fechado e, por ocasião do incêndio, ele foi invadido. Por isso, foram necessárias as instalações elétricas que nossa heroína executou. O hospital rapidamente foi estruturado, operacional e administrativamente, sendo um exemplo de ação emergencial bem sucedida. Hoje, é um hospital universitário, pertencente à Universidade Federal Fluminense.

Vejamos o que a nossa corajosa heroína ainda foi capaz de realizar!

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Várias crianças foram diretamente atingidas pela lona em chamas. Algumas tiveram melhor sorte e ficaram debaixo de outros espectadores, mas ainda assim ficaram feridas. Para motivar todas, Maria Pérola teve uma ideia:

— Vocês não gostariam de ser escoteiros? — ela perguntou, sempre vestida com seu uniforme, a exemplo dos demais companheiros.

E assim, no dia 11 de janeiro de 1962, surgia o Grupo Escoteiro Antônio Pedro, fundado ali mesmo. Não se tratava mais da melancólica enfermaria de um hospital, era agora a orgulhosa sede de bravos escoteiros, formada por uma patrulha de escoteiros do mar, outra de básicos e uma matilha de lobinhos, além de dois meninos agregados. Na época, somente homens podiam fazer parte dos escoteiros, mas naquela situação-limite duas meninas tiveram autorização para participar.

O espaço sofreu uma incrível transformação. As paredes foram decoradas com os símbolos e cartazes referentes ao movimento. As cabeceiras dos leitos receberam flâmulas de lobinho. O teto ganhou um moitão — espécie de roldana — por onde foi passada uma corda, que segurava a bandeira brasileira. Todo dia, às 8h, antes da reunião matinal, era feito o ritual de hasteamento. À tarde, por volta das 17h, acontecia o arriamento. Se estivessem deitados na cama, os integrantes esticavam os braços junto ao corpo, perfilados. Caso já tivessem passado para a cadeira de rodas, endireitavam-se e comandavam a cerimônia, cantando o Hino Nacional. O escotismo era levado tão a sério que os médicos diziam:

— Dá licença, podemos entrar? Viemos aqui visitar os escoteiros.

Seis meninos formavam a patrulha de escoteiros do mar. Maria Pérola arrumou uma bacia grande na sala de cirurgia. Sua irmã, que morava na Bahia, enviou-lhe um saveiro em miniatura. Um ventilador simulava o vento marinho. Mesmo de cama, sem poder se locomover, as crianças indicavam as manobras, como a direção que deveria ser posta a vela. Barcos menores, fabricados com caixa de charuto, e miniaturas de boias de balizamento eram colocados sobre o corpo dos meninos, por cima do lençol, e eles ficavam responsáveis por fazer os movimentos. Também aprenderam a dar nós. As cordas eram mais finas, para facilitar o trabalho. Um garoto que tinha uma das mãos severamente queimada se virava com o pé.

Os pacientes, com os pulmões cheios de fumaça, ganharam apitos e estudaram o código Morse. Tinham que soprar para se comunicar e, com isso, o sistema respiratório ia descongestionando-se sem que percebessem. Como todo escoteiro, também dominaram o sistema de semáfora, em que o alfabeto é formado com o auxílio de bandeiras nas cores amarelo e vermelha, muito usado por marinheiros para conversar à distância. Quando ainda estavam acamadas, as crianças tentavam adivinhar as frases transmitidas pelos chefes. À medida que passavam a andar, elas se comunicavam entre si na enfermaria movendo os braços. Sem se dar conta, faziam exercícios que facilitavam na recuperação.

Uma ocupação que se tornou popular foi o jogo do Kim, que consiste em dispor numa mesa 24 objetos para serem memorizados durante um minuto, antes de serem cobertos. Cada jogador tem dois minutos para escrever o maior número de itens de que se lembrar. Se não souber o nome, desenha. No hospital, era preciso adaptar o jogo, e surgiu o Kim voador. Quinze objetos — como bolas, argolas, escovas de dente, lápis — eram jogados de um chefe para outro. Enquanto estavam no ar, tinham de ser decorados. Em seguida, as crianças anotavam o que lembravam. Se não tivessem condições de escrever, falavam. Outra habilidade estimulada era a de equilibrar livros na cabeça, fossem caminhando ou se deslocando em cadeiras de rodas. E alguns pacientes, de tão pequenos, tinham que ir no colo — mas levando um pequeno exemplar no alto do corpo.

Maria Pérola achou que já era chegada a hora de submetê-los à prova de acender uma fogueira usando apenas dois fósforos, e conseguiu autorização dos médicos para descê-los até o quintal do hospital. As crianças que já podiam se movimentar cataram no chão de terra gravetos finos e secos caídos das árvores, enquanto os que estavam em cadeira de rodas apontaram os pedaços que queriam. Maria Pérola sentia-se dividida. Animava-se com o entusiasmo que vinham demonstrando, mas estava tensa, temendo a reação deles diante das chamas. Apesar da empolgação, nenhum dos meninos ousava se arriscar. Até que ela perguntou, numa voz que não escondia a apreensão:

— Quem vai ser o primeiro?

No instante em que riscaram os fósforos, o alívio e a satisfação: nenhum deles se assustou.

O humor e as brincadeiras eram constantes, mesmo na hora dos curativos, e isso era fundamental para distender o ambiente. Antes da reunião da manhã, fazia-se uma chamada. Quando alguém demorava mais do que o habitual na sala de cirurgia, era saudado ao voltar à enfermaria com frases como:

— Perdeu o ônibus?

Era como se tivessem se atrasando para a reunião do grupo e fossem repreendidos. Afinal, uma das marcas do escoteiro é ser pontual. Os gracejos aliviavam o desconforto e devolviam coragem e altivez àquelas crianças sofridas nos momentos mais difíceis:

— Sou um escoteiro, sou um lobinho.

Também a música era usada para amenizar o processo de recuperação. Escoteiros e chefes cantavam acompanhados pelo acordeom de Maria Pérola. No repertório, canções populares, o hino dos escoteiros e músicas do movimento, como “O lobinho”. Com o tempo, o hospital começou a esvaziar, e os adultos passaram a ser transferidos para a ala das crianças, atraídos pelas atividades recreativas.

Nos primeiros dias após a calamidade, o hospital fervilhava de voluntários, que empurravam macas, removiam obstáculos, limpavam o chão, carregavam os doentes, alimentavam-nos. Mas Maria Pérola, realista, sabia que o movimento logo arrefeceria. Não tardou a descobrir que estava certa. No dia 25 de dezembro, muitos não apareceram por conta do almoço de Natal. Tampouco voltaram nos dias seguintes. Na véspera de Ano-Novo, houve nova debandada. Só ficaram os mais abnegados. Maria Pérola reuniu-se com os outros chefes e fez uma tocante conclamação:

— Respeitamos a decisão de cada um, mas os escoteiros têm que ter disciplina. Agora a responsabilidade é só nossa, porque o pessoal está indo embora. Nosso dia não vai acabar hoje nem amanhã. Vamos ficar aqui por muito tempo.

Maria Pérola era professora dos colégios Santa Bernadete e Pio XI. Já que o incêndio ocorreu nas férias escolares, entre dezembro e fevereiro, pôde dedicar todo o seu tempo ao hospital. Chegava de manhã cedo e só ia embora no fim da tarde. Às vezes, emendava 48 horas sem sair de lá. O tradicional almoço de Natal, que reunia toda a sua família, daquela vez teve uma baixa. Só um dia interrompeu suas atividades no hospital, ao perceber que, abalada com tanto sofrimento, precisava de uma pausa.

— Não adianta. Não estou aqui para descarregar minha emoção. Vim para ajudar, não para atrapalhar. Tenho que me normalizar.

Foi para casa, tomou um banho demorado e no dia seguinte voltou refeita.

[A seguir: Maria Pérola e a volta às aulas]

Maria Pérola Sodré (e o Espetáculo mais triste da Terra)

Na já longínqua década de 1960, precisamente no domingo de 17 de dezembro de 1961, um crime bárbaro horrorizou o país. Tratou-se de um incêndio criminoso em um circo, em pleno espetáculo, tirando a vida de mais de quinhentas pessoas, a maioria, crianças.

Quando Bertold Brecht afirma “Infeliz a nação que precisa de heróis”, ele não quer menosprezar a figura mística do herói, mas sim, lamentar a situação que fez criar esse herói. E, aí sim, podemos aliviados dizer que um herói surgiu entre nós. No nosso caso, uma heroína… Uma senhora franzina, uma gigante no Escotismo Brasileiro. Maria Pérola Sodré está nas vésperas de completar 91 anos de Promessa Escoteira!

O que mostraremos aqui são trechos do excelente livro “O espetáculo mais triste da Terra — O incêndio do Gran Circo Norte-Americano”, de autoria do jornalista Mauro Ventura, publicado pela Companhia das Letras. Vale a pena ter o livro na estante da sua casa. O que mostraremos aqui é o capítulo 20 dessa importante obra: “Uma Pérola em meio à dor”. Agradecemos ao “petroescoteiro” Josemar Pegoretti por nos ter apresentado essa preciosidade.

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Se os escoteiros escreveram um comovente capítulo de dedicação e entrega nessa tragédia, Maria Pérola Sodré merece destaque especial: é a protagonista dessa história. Com esse nome carregado de significado, ela planejara formar uma família numerosa, a exemplo da sua. Mas era ainda mais ambiciosa que seus pais, que tiveram sete filhos. Sonhava com nove. Casou-se nova — no dia do seu 21º aniversário — e teria tempo suficiente para atingir sua meta. Dois anos depois, estava separada e com um menino de um ano e três meses no colo. Não se casou mais.

Ela e seus seis irmãos nasceram num intervalo de apenas onze anos.

— Não é uma escadinha, é uma rampa — brinca Maria Pérola, terceira de um total de cinco rapazes e duas moças.

Desde cedo todos ingressaram no escotismo. Era um caminho natural. O pai era escoteiro, e a mãe, bandeirante. As cunhadas e o cunhado também faziam parte da tradição. Aos poucos, os demais foram saindo, e só ela permaneceu. Tornou-se chefe do movimento bandeirante em 1940 e, em 1961, aos 39 anos, na hora em que o fogo amadureceu à força centenas de crianças que sobreviveram à tragédia, já contava com uma década à frente dos lobinhos, como são conhecidos os escoteiros de sete a onze anos. Ela chefiava o grupo Gaviões do Mar e usava o codinome Gaivota Branca.

Quando souberam que a festa de fim de ano, marcada três meses antes, cairia no mesmo dia da matinê do circo, não foram poucos os meninos que reclamaram da coincidência e insistiram em trocar de programa. Mas os pais foram inflexíveis, alegando que escotismo não era brincadeira, para frustação dos filhos, contentamento de Maria Pérola e sorte de todos, como se perceberia depois. Logo após a notícia do incêndio, os escoteiros distribuíram-se pelos hospitais. Não era uma questão de escolha. Eles apenas seguiram a promessa do movimento, que diz: “Ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião”.

Uma turma foi para São Gonçalo, enquanto Maria Pérola rumou para o Antônio Pedro com alguns colegas. Seu filho era escoteiro sênior — de quinze a dezessete anos — e dirigiu-se ao estádio Caio Martins, ao lado de um conjunto de pioneiros — acima de dezessete. Foram ajudar a tranquilizar os que iam reconhecer os parentes. Havia muito o que fazer no Antônio Pedro, e a experiência do escotismo mostrou-se de grande utilidade. Um dos chefes foi coordenar a cozinha — desde os onze anos os escoteiros fazem sua própria comida. Outra turma encarregou-se da faxina — varreu os pisos, deu uma geral nos banheiros, passou pano no chão, limpou os corredores. As instalações estavam caindo aos pedaços, e Maria Pérola, que havia terminado um curso de eletricista por correspondência, ajudou a ajeitar a fiação, trocou lâmpadas, instalou fios e consertou tomadas. Um grupo ficou responsável pela lavanderia. Outro passou a noite numa sala, separando os medicamentos enviados por farmácias, laboratórios e voluntários. Em todo lugar se viam escoteiros e bandeirantes. Um deles, Fernando José Caetano Lopes, de dezesseis anos, estava no cinema quando interromperam a sessão para avisar do incêndio. Foi para casa, ligou para alguns colegas e seguiram todos para o hospital. Mesmo morando perto, ficou três dias sem passar em casa, dormindo nas grades das camas de ferro. Ia e voltava do almoxarifado à enfermaria, da dispensa ao centro cirúrgico, com as mãos cheias de picrato de butesin e furacin, as duas pomadas mais usadas contra queimadura. Aos poucos, o caos inicial foi dando lugar a certa ordem.

[Observação da Patrulha Jaguatirica: não se usa mais picrato de butesin em queimaduras.]

Uma semana depois do incêndio, o tempo mudou na cidade. Bateu um vento noroeste, desabou um temporal e faltou luz no Antônio Pedro. Num gesto impulsivo, os chefes dos escoteiros começaram a acender velas. Era um procedimento natural — mas que se mostrou desastrado. No mesmo instante, a gritaria e o choro encheram o ambiente. A memória do fogo assustou crianças e adultos. As velas foram logo apagadas, e o hospital caiu de novo na escuridão.

O Getulinho viveu experiência semelhante. Cerca de três dias depois da tragédia, um problema no fogão fez com que o hospital se enchesse de fumaça. Mesmo feridas, as crianças correram em direção à escada, para escapar do que imaginavam ser outro incêndio. A irmã encarregada do centro cirúrgico abria os braços, tentando evitar a fuga, até que os ânimos se acalmaram.

Quinta-feira era dia de visita no Antônio Pedro. O comparecimento de amigos e parentes trazia alento à enfermaria. Maria Pérola observava a agitação no centro cirúrgico quando foram alertá-la sobre a presença de curiosos. Não era a primeira vez. Eles iam de cama em cama, aproximavam-se dos pacientes e, insensíveis, comentavam:

— Coitada. Será que avisaram a ela que o marido morreu?

Ou então:

— Será que a senhora sabe que perdeu os dedos?

— Deixa comigo — indignou-se ela, e resolveu por fim àquele jardim zoológico humano.

Na visita seguinte, subiu até as enfermarias do terceiro andar e esticou uma corda de um lado a outro da porta, impedindo a entrada de estranhos na ala dos adultos. Só passava quem ela autorizasse.

— Não, você não é parente — proibia.

Foram queixar-se dela ao diretor do hospital, Almir Guimarães. Ele chamou-a ao gabinete e pediu explicações. Por que afinal ela estava vetando visitantes? Maria Pérola narrou o problema, e ele encerrou a conversa.

— Você está certa, muito bem.

Nas enfermarias, curiosos, voluntários, políticos, religiosos, jornalistas e parentes tinham a companhia de tipos inoportunos. Um suposto médico circulava à vontade pelos corredores. Com o uniforme branco habitual, começou a executar incisões. Depois dos cortes, passou a querer fazer curativos. Foi denunciado pela sua inexperiência. Outros intrusos também aproveitavam a confusão para se fingir de doutores. Herbert Prachedes, chefe do laboratório do Antônio Pedro, aproximou-se de uma paciente e notou um corte de quase dez centímetros na parte interna da coxa, aparentemente para dissecar uma veia e fazer uma transfusão. Levou um susto.

— Quem fez isso não tem noção nenhuma de anatomia. Não há qualquer vaso nessa região — espantou-se. — Essa incisão é só mais uma porta de entrada de infecção.

A preocupação de infecções também levou o cirurgião José Luiz Guarino a procurar o diretor do hospital e avisar:

— Almir, está todo mundo entrando. Eles mexem nos doentes, tiram os curativos, examinam. Não pode continuar como está.

O cirurgião havia visto um vizinho, funcionário público, entrar tranquilamente e anunciar:

— Eu sou doutor.

Como ele, outras pessoas arrumavam jalecos e invadiam sem constrangimentos as enfermarias. A partir da ação de Maria Pérola, de Guarino e de Fortunato Benaim, foram postos vigias para filtrar os penetras.

[A seguir: Maria Pérola e os novos Escoteiros]