O USO CULTURAL DAS CONTAS NOS TEMPOS ANCESTRAIS ATÉ OS TEMPOS MODERNOS

Voltamos aqui a reproduzir o excelente livro “Tradições Escoteiras — O Parque de Gilwell e a Insígnia de Madeira”, de Moacir Starosta, membro atuante da Patrulha Jaguatirica.

Recomendamos enfaticamente a leitura do livro inteiro, onde estão presentes todas as referências de suas pesquisas. No presente instante, apresentaremos mais um capítulo.


Para escrever um pouco sobre esta tradição zulu, relatarei em breves palavras um pouco sobre a origem do povo zulu que mantém, de certa forma esta bela tradição até os dias atuais.

O povo zulu, “povo do céu” em dialeto de tribos africanas, remonta a fundação do reino do Congo em 1240 de nossa era atual. Os povos africanos realizavam constantes migrações em busca de novas terras, motivados pelas constantes disputas de seus herdeiros por novas e mais amplas extensões de terra.

Malandela KaLuzumana, um dos herdeiros diretos de Mnguni, desposou Nozinja de Gabeni, uma das herdeiras do reino do Congo (seu sobrenome teria mudado para Zungu), sendo que Nozinja teria tido quatro filhos: Qwabe, Gazu, Mgcineka e Zulu.

Nozinja de Gabeni

Quando Malandela morreu seu reino foi disputado pelos filhos Zulu e Qwabe. Cada um dos dois seguiu rumos diferentes, sendo que, Zulu permaneceu nas terras de seu pai. Assim, gerações originárias da mesma linhagem de sangue se sucederam e, por diversas ocasiões, se dividiram, quer por disputas entre seus sucessores, quer pelo não nascimento de homens em algumas gerações. Até que, em 1818, ocorreu um fato que marcou a história do povo Zulu até os dias de hoje.

Ocorreu uma época de conflitos chamada Mfecane. Diversos conflitos ocorreram até a unificação dos povos que haviam se mudado e retornaram a fazer parte desta grande nação que iria se formar, quer por conquista de diversos outros clãs, ou por sua união, sendo chamados então de Zulus.

Dentre as muitas tradições do povo zulu está o uso de colares de contas de madeira de diversas formas e cores, com seus mais diversos significados.

Aqui, gostaria de fazer um comentário muito pertinente.

A afirmação de que existiu somente um ou dois colares como os utilizados pelo rei Dinizulu não se constituí em uma verdade. De certa forma, talvez seja uma falha nas traduções de alguns documentos para a língua portuguesa, como veremos a seguir nos fatos históricos. A ideia de que se tem, é de que existiram somente um ou dois colares de contas de madeira utilizados por Dinizulu, mas existiram e existem muitos colares de contas de madeiras idênticas às utilizadas por Dinizulu e por outros líderes zulus.

Existem relatos históricos que o rei Dinizulu presenteou algumas pessoas com seus colares. Por exemplo, uma pessoa muito importante em sua vida, pois o ajudou quando de seu julgamento por traição à coroa britânica e por assassinato, foi a Sra. Harriet Colenso.

Agnes Colenso, sobrinha da Sr.ª Harriet, com um pequeno colar com contas iguais às de Dinizulu, possivelmente presenteadas pelo mesmo à Sr.ª Harriet Colenso.

Até os dias de hoje, modelos em escala menor são utilizadas por místicos e teólogos na região originária dos fatos, províncias de KwaZulu, estado de Natal, na África do Sul, terra que os descendentes do povo zulu habitam.

Muitos escoteiros estão familiarizados com as contas da Insígnia de Madeira e, muitos sabem que B-P teria capturado o colar original do Rei Dinizulu como espólio de guerra.

Os africanos gostam muito de vestir adornos, até os dias de hoje, bem como, muitos de seus pretensos colonizadores ingleses, por exemplo, se utilizavam desta tradição ou adorno, mas o Rei não utilizava este colar como tradição ou adorno.

Culturalmente, as contas são chamadas “Iziqu” pelos Zulus, conta de madeira. No plural, “Izique”, contas de madeira, sendo os colares feitos de contas de madeira intercaladas presenteados aos guerreiros pelo rei.

Quanto à sua etimologia, o significado é de distinção de honra, diploma ou vitória, também tendo o significado “do colar zulu da coragem”. E são, ainda nos dias de hoje, usualmente enfiadas em um pedaço de corda feita de fibras vegetais ou em uma correia de couro sendo, chamado de “mnyezane”.

Existem alguns colares em museus. Um exemplo, é o colar que se encontra no museu de Natal, África do Sul. Os colares reais eram chamados de “Izazonco”.

Mnyezane, museu da Universidade de Natal, Durban, África do Sul, bem como Dinizulu com seu colar

As contas são utilizadas ao redor de todo o corpo. De acordo com suas funções especiais, seria uma espécie de “medicina profilática” contra o mau olhado, proteção nas batalhas, contra a morte e em cerimônias de purificação.

Em casos de bebês, “Iziqu” é usualmente utilizada em torno da cintura e do pescoço. Quando utilizada em torno da cintura, eles acreditam que o corpo do bebê será robusto e que ele ou ela virão a crescer com um corpo forte e sadio. Quando utilizadas em torno do pescoço ou pulso, a criança escapará de ter qualquer epidemia ou doenças infecciosas, o que é predominante no país ou em qualquer região onde o povo seja nômade.

No caso de adultos, quando as contas são utilizadas em torno de seus pulsos, o possuidor deseja que os músculos de seus braços se tornem fortalecidos ou, se ele tiver dor em seus braços, a dor diminuirá. Uma tribo perto de Biera, na África Portuguesa Oriental, chamada de Acikunda, tinha uma grande crença nas contas de madeira. Eles a utilizavam ao redor dos pulsos, conjuntamente com outras contas brancas. Eles diziam que se caminhassem pelas florestas do país e estivessem em perigo de vida por parte de animais selvagens, eles sacudiam seus colares e um leão manso viria e os escoltaria em sua caminhada em segurança.

Alguns africanos vestem suas contas quando devem comparecer perante um tribunal, esperando vencer suas causas por causa disto. O próprio Dinizulu os utilizava. Em um de seus julgamentos, ele os teria utilizado como demonstramos em fotos neste livro.

Em Abril de 1947, na revista Jamboree, G. F. McIntyre, da Rodésia Meridional diria:

“Eu começei a acreditar que o Rei Dinizulu utilizava seu colar por uma razão muito especial.

Eu estava conversando num dia destes, com um descendente da Casa Real de Kumalo, sobre Lobengula  que seria um destes membros.

Lobengula seria Rei dos Matabeles e tinha relação com Dinizulu.

Eu também aprendi que ele utilizava um colar de contas semelhantes às da Insígnia de Madeira, então seria seguro deduzir que Dinizulu utilizava seu colar com a mesma razão do que o Rei Lobengula, ou seja,  como uma espécie de coroa real.

O colar seria chamado de “Isazonco do Rei”, e somente o Rei teria permissão para utilizá-lo. Então, as pessoas sabiam que ele seria o Rei e, o respeitavam como tal e, quando ele visitasse outros reinos, ele também seria reconhecido como um grande Rei e temido como tal.

Então, o colar representaria seu poder e seria o emblema de sua posição social.

Também o colar seria reconhecido como possuidor de um grande poder medicinal daria força, autoridade e sabedoria a quem o utilizasse, sendo uma grande honra a quem o possuísse e, crença e devoção ao seu conselho.”

Então, ao vermos as contas da Insígnia de Madeira, ou melhor, as contas do Rei Dinizulu, não é incorreto escrever — elas ainda adornam líderes de uma certa forma.

Isandlwana é uma planície isolada no estado de KwaZulu-Natal, na África do Sul, onde ocorreu uma batalha entre os britânicos e guerreiros zulus em janeiro de 1879, como parte da grande guerra Anglo-Zulu. Em lembrança a este evento libertário do povo zulu da subjugação e segregacionismo durante séculos, existe um monumento onde são utilizados imitações das contas de madeiras utilizadas pelo povo zulu em seus colares místicos, chamados Mnyezane.

Fotos de Dinizulu

Geraldo Hugo Nunes

Apresentamos, abaixo, uma breve biografia de Geraldo Hugo Nunes, de autoria de Moacyr Mallemont.

Geraldo Hugo Nunes dá hoje o nome do Campo-Escola da Região Escoteira Rio de Janeiro, onde o próprio Moacyr Mallemont estreou como Diretor de Curso.

Falamos da época da antiga Região Escoteira da Guanabara, então desvinculada da Região do Rio de Janeiro, uma vez que, na época, existiam os dois estados separados. E antes de Brasília se tornar a Capital do Brasil, a Guanabara é que era o então Distrito Federal.

Boa Leitura a todos!

Ricardo Coelho dos Santos

Escriba da Patrulha Jaguatirica — cadeira nº 6 — patrono André Pereira Leite


Diante de dezenas de escoteiros da Região da Guanabara, o presidente Ivan Rodrigues de Farias assinalou: “Hoje, a galeria daqueles que deram suas vidas pelo escotismo foi enriquecida com o nome de Geraldo Hugo Nunes. Perdemos a convivência do grande chefe e amigo, mas seu exemplo em 50 anos de relevantes e dedicados serviços à nossa juventude e nossa Pátria será para nós um estímulo para prosseguirmos na luta pelos nossos ideais. A dor que todos nós sentimos só é suportada pela lembrança de uma vida ímpar, plena de conquistas e realizações”.

Era o dia 10 de julho de 1974. Morto na véspera, vítima de enfarte, aos 63 anos baixava para o último repouso o corpo de um homem que dera sua vida ao escotismo.

Nascido a 1º de maio de 1913, Geraldo Hugo Nunes, o “Geraldão”, ingressou no escotismo em 29 de setembro de 1924 na Associação de Escoteiros Católicos Nossa Senhora do Amparo, da Federação dos Escoteiros Católicos do Brasil. Feita sua promessa, permaneceu em atividade até que em 1936 foi convidado a dirigir a Associação de Escoteiros Católicos São Pedro de Cascadura, hoje 3º Grupo Escoteiro Católico São Pedro de Cascadura, permanecendo na direção até dia de seu falecimento, 38 anos depois.

Em 1942, foi tesoureiro da Federação Carioca de Escoteiros e logo em seguida Presidente do Conselho Metropolitano dos Escoteiros Católicos. Ao mesmo tempo em que chefiava o 3º GE, foi também Comissário de Lobinhos da Federação Carioca de Escotismo, Comissário de Escoteiros da Região do Distrito Federal, hoje cidade do Rio de Janeiro, chefe de Campo do Ajuri do Cinquentenário, chefe de campo do Acampamento Internacional de Patrulhas e, em 1971, chefiou os escoteiros da Região da Guanabara, como Comissário Regional. Permaneceu nesta função até o dia de sua morte.

Em reconhecimento por seus serviços prestados ao Escotismo, recebeu as medalhas de Mérito, Bons Serviços Ouro, Cruz de São Jorge, Medalha Tiradentes e por fim, em abril de 1962, a mais alta condecoração concedida pelo Escotismo no Brasil: O Tapir de Prata.

Na área de formação, dirigiu vários cursos, tendo participado ainda como aluno, membro da Patrulha dos Pombos, no primeiro curso da Insígnia de Madeira do Brasil, realizado em São Paulo em 1949. Complementou sua formação com os cursos de Pioneiros, Comissário Distrital e Chefe de Grupo.

Preparando-se para transmitir seus conhecimentos fez o curso “Adestrando a Equipe”, sendo nomeado Assistente de Deputado Chefe de Campo (Diretor de Curso Básico) em agosto de 1961 e, finalmente, Diretor de Curso de Insígnia de Madeira. Nessa condição, participou como diretor ou membro da equipe de diversos cursos no Rio de Janeiro e em outras Regiões.

Sua morte no exercício da função de Comissário Regional causou grande comoção. Ao final de seu enterro, exclamou o Presidente da Região da Guanabara: “Escoteiros, em saudação! Olhai firme á frente e contemplem o Vulto que se agiganta, do escoteiro que aqui homenageamos. Nas noites em volta do fogo, contem àqueles que ainda não o sabem, que vocês conheceram um GRANDE CHEFE!”

Encerrava-se assim a vida de Geraldo Hugo Nunes, coberto de honrarias e diante de grande contingente de lobinhos, escoteiros de Terra, Mar e Ar, além de chefes, dirigentes, bandeirantes e demais amigos. Pouco tempo depois o Campo Escola da Região do Rio de Janeiro recebeu seu nome, perpetuando-se, dessa forma, a memória de um Grande Chefe.

Panchito

O texto de hoje foi retirado das memórias do nosso inesquecível fundador e monitor inicial, Moacyr Mallemont, numa das suas aventuras escoteiras internacionais.

Essa narrativa é de um fato ocorrido acerca de 65 anos atrás!

Boa Leitura!

Ricardo Coelho dos Santos

Escriba da Patrulha Jaguatirica — cadeira nº 6 — patrono André Pereira Leite


Para participarem do Jamboree de Sutton Park, em 1957, na Inglaterra, Dr. João Ribeiro dos Santos, denominado de “o Bravo”, Walter Quintão e Moacyr Mallemont, fundador da Patrulha Jaguatirica, partiram do Rio de Janeiro em um navio com escalas em Las Palmas, na Ilha de Gran Canarias, a capital do arquipélago, em Lisboa e na cidade de Vigo, na Espanha.

A escala nessa última cidade portuária seria de poucas horas, e não daria tempo para eles irem a Santiago de Compostela como desejavam, pois distava cerca de 70 km ao norte.

Mas, mesmo assim, optaram para conhecer o local; queriam saber porque Vigo era o maior porto pesqueiro da Europa. Então, alugaram um táxi para um passeio pela cidade. Pediram ao motorista para que os levasse aos lugares mais interessantes, e, assim, deram uma volta pelos pontos principais: a praça, a igreja, e assim por diante.

Num certo ponto, o motorista perguntou se eles não gostariam de ver tudo do alto. Acertaram o preço da corrida e foram por uma estrada sinuosa de terra até uma localidade em que se descortinava uma visão magnífica da cidade e do porto.

Depois de alguns minutos apreciando a paisagem, um jovem se aproximou deles. Parecia estar curioso com os uniformes que ostentavam orgulhosos, com o distintivo do “BRASIL”, em verde com letras amarelas acima do bolso direito da camisa e das japonas. Dr. João lhe ofereceu uma bala, e ele relutou um pouco a aceitar. Tinha uns doze anos e se vestia com simplicidade. Sapatos, meias e paletó escuros com camisa verde, também escura. Não sorriu.

Foi quando ele puxou a aba da lapela esquerda do paletó e mostrou um distintivo escoteiro, fazendo com o dedo da outra mão sinal de silêncio.

Dr. João desviou imediatamente a atenção dos companheiros para apontar em direção oposta a que estava o jovem e falou entre os dentes para que o motorista não ouvisse:

— Disfarcem. Depois eu lhes conto.

Quando eles voltaram, o jovem já estava descendo o promontório em se encontravam. Dentro do táxi, conversaram sobre amenidades. Mais tarde, no navio, depois de um almoço ligeiro num restaurante simples, Walter e Moacyr perguntaram uníssonos ao Dr. João, o que o jovem queria dizer.

— Aquele jovem faz parte do Movimento Escoteiro clandestino na Espanha. Aqui é uma ditadura governada à mão de ferro pelo General Francisco Franco. Aquele jovem correria perigo, se alguém o delatasse!

Moacyr Mallemont guardou a imagem do “Panchito” na memória até o fim da vida.

O Exemplo

Apresentamos aos leitores do blog da Patrulha Jaguatirica um texto do famoso jornalista e cronista João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, membro da Academia Brasileira de Letras, conhecido como João do Rio (Rio de Janeiro, RJ — 05/08/1881 — Rio de Janeiro, RJ, 23/06/1921).

Com certeza, os senhores irão se deliciar com o texto historicamente rebuscado, tão comum na época que lhe deu a merecida fama, como vão vislumbrar o ufanismo e as ações dos escoteiros paulistas, quando nem seu nome em português era conhecido do público e a Associação Brasileira de Escoteiros tinha somente dois anos de funcionamento.

O presente texto foi nos presenteado pelo Jaguatirica Altamiro Vilhena. Originariamente foi publicado no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro, então Capital Federal, em 09/09/1916.

Boa leitura a todos!


— Ser do seu país, se não é instinto, que profissão pode ser? Não se é filho nem irmão profissionalmente. A gente é da sua terra, como do seu sangue…

Estas palavras de um pensador ardente, eu as vejo simples no olhar dos homens que passam na rua. Estado de migrações várias, Estado onde se conseguiu adaptar o colono com garantias como em nenhuma outra parte da Federação, o elemento nacional, a inteligência plasmadora do seu povo é tão forte — que cada vez mais ele é o coração do Brasil. Os grandes dias de festa nacional, eu os passo sempre em São Paulo. Impele-me tudo quanto possa ter de nobre o desejo de sentir os sentimentos admiráveis. Nada mais triste que a comemoração de uma data nacional com as ruas desertas, um aspecto de domingo em repartição pública pairando sobre a cidade. São Paulo faz sempre o contrário, naturalmente, sem excessos. Basta sair, dar alguns passos, compreende-se a harmonia dos sentimentos. A glorificação da data é um dever aceito com fervor pelo governo e pelo povo. Em França não há ninguém que não seja francês a quatorze de julho. Em São Paulo, não há estrangeiro que não sinta a segunda pátria, a atmosfera de entusiasmo. Hoje, dia 7 de setembro, mais do que nunca, eu penso no instinto da pátria e naquela frase de José Bonifácio, que desejava a pátria uma “peça inteiriça”.

Foi aliás desde cedo e até à noite uma extraordinária lição de civismo, como inspirada no gênio tutelar do Andrada, uma lição em que o povo e governo eram professores a incitar a certeza das crianças e da juventude. Todas as escolas dos bairros, todas as escolas do vasto Estado, em todas as cidades, comemoravam a independência. Eu fui à Escola Normal, onde se dá ensino a mais de três mil pessoas. E nesse palácio da educação, as sensações de carinho e de inteligência fundiam-se num profundo e nobre sentimento de beleza moral. Estavam todos os professores, essas grandes dedicações modestas, formadoras, da alma jovem. Estava o secretário do Interior, o sr. Oscar Rodrigues Alves, professor, cujo esforço rútilo se volta inteiramente para o incremento da grande obra de ensino; estava o secretário da Justiça, sr. Eloy Chaves, impetuosa força de vida ativa que tornou definitiva e modelar na América a polícia de São Paulo, e que já foi secretário do Interior. Estava o sr. Cândido Motta, exemplo do self made man secretário da Agricultura e professor. Chegara a pé, discretamente o presidente sr. Altino Arantes, que deixara a secretaria do Interior para dirigir com a sua luminosa inteligência os destinos de São Paulo. Era assim a festa, com todos os fatores da formação daquela juventude. Presidente, secretários, professores percorreram todas as salas, desde o jardim da infância até o grande salão das solenidades dos normalistas. E desde as criancinhas de quatro a seis anos que recitam e conversam e marcham contentes, querubins de Murillo descidos do céu, desde os petizes das escolas anexas que fazem discursos e mostram uma disciplina encantadora, até às senhorinhas que vão ser amanhã professoras e aos rapazes que se preparam para o alto dever de ensinar, admirei não só o flagrante da beleza física das gerações em preparo, não só o sentimento de livre disciplinamento, em que cada um ocupa o seu lugar consciente do seu lugar, como principalmente a coesão moral para a transformação do mesmo ideal em realidade. Não há discursos de professores, não há nenhuma dessas manifestações de incontinência verbal tão próprios do continente. Mas todos sabem que estão ali reforçando, preparando, continuando uma Vontade — aquela milagrosa vontade paulista, de que José Bonifácio foi um dos símbolos mentais. Os rapazes, as meninas falam com o olhar. Cada um parece dizer: — Tenho de ser assim, nós queremos…

Por isso, os rapazes e os meninos, as raparigas e as criancinhas mostram o mesmo alegre sorriso de segurança, o mesmo ardor contido. É como se estivéssemos em certas escolas da Suíça, no pátio, onde os pequenos cantam ou fazem evoluções; é como se estivéssemos em certas universidades inglesas ou em escolas alemãs, diante da verdadeira festa literário-musical dos normalistas em que o maestro João Gomes mostrou um orfeônico de trezentas vozes, só comparável a alguns de Munique, pela beleza da expressão.

Apenas, festa de civismo, dia da independência, os pequenotes do jardim da infância brincavam, aprendendo, em torno do motivo Pátria, as crianças dos outros cursos cantavam os hinos pátrios, os normalistas repetiam esses hinos e recitavam versos em torno do mesmo assunto. E, por todos os lados, nas paredes, nas colunas, nos galhardetes, retratos de José Bonifácio eram como as marcas inumeráveis do espírito que ali os reunia a todos.

Quando o presidente e os secretários saíam, as crianças, os rapazes atiraram-lhes braçadas de flores. O presidente estava comovidíssimo e sorria. Os secretários tinham na fisionomia a satisfação. Era a certeza de que São Paulo de amanhã continuará com o mesmo sentimento, com o mesmo divino instinto de querer a sua Pátria igual ás maiores. Ao mesmo tempo em não sei em quantas mil escolas do território paulista a mesma festa se realizava e os mesmos hinos patrióticos subiam no ar…

Depois da comemoração escolar seria impossível pensar senão na festa da independência. O presidente saía da Escola Normal para assistir, na avenida Paulista, diante dos bustos de Tiradentes, Pedro I e José Bonifácio, o desfilar das escolas, das linhas de tiro, dos boys-scouts. Muito habilmente, governo e povo faziam o dia inteiro de devoção das crianças e da juventude.

Antes de qualquer outro Estado, São Paulo compreendeu a necessidade das linhas de tiro, que o governo passado fez parecer com receios infundados.

Antes de qualquer outro Estado, o povo prezou a ideia do scoutismo, traduzida pelo sr. Mario Cardim , da Inglaterra, onde, graças a esse preparo, lord Kitchner pôde organizar quase de repente um exército eficiente de alguns milhões de homens. E o governo de São Paulo acolheu, ajudou o scoutismo — escola de patriotismo. Assim, o dia do grito da independência, era São Paulo inteira a incentivar o garbo da juventude.

A multidão enchia a avenida — multidão onde não se vê um homem descalço e sem gravata. Quando o presidente e os secretários chegaram ao belvedere, o hino nacional explodiu junto ao palanque, ecoou para a direita, para a esquerda, espalhou-se num clangor confuso por toda a perspectiva. Depois, de repente, um súbito silencio, uma corneta vibrou aguda e, como elevado na chama dos aplausos, ascendeu ao topo do mastro, que guardava os bustos dos fatores da independência, o pavilhão nacional.

Então, após a palavra do sr. Pedro Prado, começou a desfilar. Eram as linhas de tiro de Santos e de São Paulo, os rifles floridos, ao som impetuoso das marchas de guerra francesas; eram as escolas, os colégios que, a cantar cantos heroicos, atiravam rosas aos bustos, eram as escolas reunidas no 7 de setembro; foi a fulgurante passagem dos estudantes do Colégio Salesiano, sob as palmas da multidão; foi a aproximação, a chegada, a passagem dos boys-scouts, cujo número pode ascender dentro de um ano a cem mil. No alto dos topes as bandeiras cor de ouro e cor de esperança drapejavam no ar o céu do cruzeiro do sul. No belvedere, todos os representantes do governo. E entre as palmas da multidão, na avenida, num clangor de cantos patrióticos e de hinos, a mocidade, o futuro num ímpeto fervoroso que se fazia disciplina galharda, diante dos três bustos.

No clamor imenso, eu olhava os três bustos. Tiradentes, D. Pedro, José Bonifácio, três expressões das tendências do Brasil e uma só indicando o coordenador da nacionalidade: São Paulo. Certo, Tiradentes morrera no patíbulo, vítima de um sonho de poetas. Mas o sonho foi na sua alma a labareda das revoltas desequilibradas, dos desesperos das pequenas inteligências, alma do Brasil nas revoltas. Com homens como Tiradentes, o Brasil teria um rosário de mártires sem eficácia. Certo, D. Pedro gritou: Independência ou morte, no Ipiranga — o sítio transfigurador de todas as partidas de conquista moral e física do Brasil. Mas D. Pedro era a pequena inteligência afundada no jorro das impetuosidades e das inconstâncias. O Brasil poderia ter vários D. Pedro e jamais teria realizado a independência.

Era precisa a inteligência avisada e prática e sóbria e tenaz, o homem que pensa, estuda a ideia, age depois decidido, sério e ordeiro, o conquistador conservador — o ser nascido naquele planalto sagrado, caminho de Damasco, onde a fé arde perene, de onde partiram os demarcadores do Brasil: — era preciso o paulista. José Bonifácio tomou a ideia dos poetas, afogada no sangue de um desesperado, agitou no momento os homens e as coisas, fez desses elementos o círculo de ferro do ímpeto de D. Pedro de Bragança, esse D. Carlos sem cultura. E D. Pedro falou o que José Bonifácio resolvera: — Independência ou morte!

Quantas vezes, depois de José Bonifácio e para a salvação do Brasil, São Paulo não tem dado, através da nossa curta história, a palavra de conquista conservadora, a ordem convincente que retém o delírio, o conselho que obriga a recuar do abismo? Ainda naquele momento aquela continuação de festa cívica, aplaudindo a genuflexão do Futuro diante do Passado, não era o aviso exemplar, a prova conservadora, o culto exemplo, o desejo de remir a Pátria nos mesmos sentimentos, de integrar a nacionalidade diante do desastre a que nos arrasta o guincho insultante dos desmanteladores de valores e o ceticismo dos sem cultura?

— A queda do respeito é a dispersão das forças, como de uma cidade de muralhas estreitas a pilhagem é a morte dos melhores.

José Bonifácio pensava com a alma de São Paulo. Os seus estadistas têm ainda essa alma e agem para guiar sempre o instinto da raça, que é a força vital das pátrias. Aquela lição de civismo, disciplina da inteligência à corrida do futuro, era como as grandes fogueiras, que outrora, nos montes gregos, assinalavam e falavam na treva por clarões. A mocidade curvava-se diante de três bustos, tendo no peito apenas o coração do patriarca. E, por isso, para o seu brilho olhava confiante o povo.

Mas o dia, que acabara assim, precisava ter a apoteose da noite, a apoteose da vigilância do presente, o fulgor de custódia que se abrira, à luz do sol, mostrando a floração da juventude. E então, à noite, pelas ruas apinhadas de gente, levadas como em baterias pelas marchas militares, os batalhões da força pública correram com fachos na mão até o largo do Palácio e aí, diante das janelas governamentais, ao clarão de milhares de balões e de achas em fogo — soldados e a multidão cantaram os hinos da Independência, da Proclamação da República. Na noite escura, às lufadas do vento, chamas dançavam como um incêndio sobre o qual bailavam os balões luminosos com as cores nacionais, todas as bandeiras do dia feitas estrelas guiadoras de um único ideal. E ninguém jamais poderá dizer a estranha, a dominadora, a imensa impressão de fervor diante desse oceano ardente, de onde subiam aos céus, entre fanfarras e chamas, sob a ânsia de milhares de bandeiras em luz, os hinos inebriantes de amor à Pátria.

— A gente é da sua terra como do seu sangue.

Nesse dia de ouro da independência, o grande Estado dizia ao Brasil, diante da ara do Passado, com o respeito do Presente e certeza no Futuro, a lição exemplo — cada homem de São Paulo foi, é e será da sua Pátria, como de seu sangue.

As Réplicas do Colar de Dinizulu Existentes no Mundo, Reconhecidas pelo Movimento Escoteiro

Mais uma vez, voltamos à continuidade do excelente livro “Tradições Escoteiras — O Parque de Gilwell e a Insígnia de Madeira” do Jaguatirica Moacir Starosta.

Boa leitura!


Para marcar o XII Jamboree Mundial, ocorrido em Idaho, Estados Unidos e o 60º Aniversário do Movimento Escoteiro em 1967, os escoteiros da África do Sul conjuntamente com rovers europeus, confeccionaram quatro réplicas do colar de Rei Dinizulu.

Depois de intensas buscas por material e meses de duro trabalho, quatro reproduções foram completadas.

Um dos colares foi conservado pelos escoteiros da África do Sul, como uma grata recordação histórica da terra de origem do emblema da Insígnia de Madeira, e os outros três foram doados para o Jamboree onde cada um deles foi presenteado solenemente a R. T. Lund em nome do Bureau Mundial dos Escoteiros, ao Chefe Escoteiro Executivo Joe Brunton em nome dos Escoteiros Americanos (BSA) e o Chefe de Campo John Thurman em nome do Parque de Gilwell. Além destas réplicas, poderão existir outras espalhadas pelo mundo. Relata-se que, um ano após, ou então, após a Insígnia de Madeira ter sido instituída, um escotista observador teria visitado um mercado ao ar livre a leste oriental de Londres, em Portobello Road, aonde existiria uma barraca onde fora avistado uma cópia fiel do colar de contas.

Ele prontamente o comprou e a enviou a Gilwell, mas sem o reconhecimento do Movimento Escoteiro, como sendo réplicas vinculadas à história que envolveu B-P e Dinizulu.

Revista World Scouting, setembro de 1967.

Quatro Escoteiros zulus exibem uma das réplicas do colar de Dinizulu, 1967. Eles são, da esquerda para a direita, Xolan Mseka, Leonard Ndhlovu, Jerome Nkhize e Harvey Khuzwayo de Durban, Natal, África do Sul — foto de Eileen Bery Smith©, 1967.

Two Lovely Black Eyes

Esse texto, de autoria do saudoso Moacyr Mallemont Rebello Filho, monitor eterno da Patrulha Jaguatirica, é de 09/07/2007. Relaciona uma canção muito querida por nós, um estado brasileiro, um navio da Marinha de Guerra do Brasil, o Movimento Escoteiro e um compositor inglês.

O texto foi adaptado por Ricardo Coelho dos Santos, escriba da Patrulha.

Boa leitura a todos!


A canção bastante conhecida por todos nós, principalmente os mineiros — “Oh! Minas Gerais”, foram os cariocas que criaram em 1910 quando viram surgir majestosamente, em 1910, o Encouraçado “Minas Gerais”, aportando na Baia de Guanabara.

Encouraçado “Minas Gerais”, que trouxe como bagagem uma carga preciosa: a semente do Escotismo no Brasil!!! Ancorou na Baia de Guanabara em 1910.
Crédito da foto: naval.com.br

Essa valsa foi uma paródia que os fluminenses criaram em cima da tradicional canção napotitana “Viene Sul Mare” (Vindo do Mar, segundo o Chefe Giancarlo Valente, que me ajudou na tradução).

O que ninguém sabia é que “Viene Sul Mare” é uma paródia de uma valsa tradicional inglesa, que Charles Coburn compôs, “Two Lovely Black Eyes” (Dois Lindos Olhos Negros). E, não termina ai a história de um poema escocês do século XVIII.

Existe uma rara gravação do próprio Charles Coburn de 1934. Segundo cálculos, tinha sido executada mais de 250.000 vezes em apresentações por toda a Europa.

Segue abaixo a letra original da canção. Agradeço ao Chefe Eduardo Pereira que motivou esta e outras pesquisas.


Two Lovely Black Eyes

Charles Coburn


Strolling so happy down Bethnal Green
This gay youth you might have seen,
Tompkins and I, with his girl between,
Oh! what a surprise!
I prais’d the Conservatives frank and free,
Tompkins got angry so speedilee,
All in a moment he handed to me,
Two lovely black eyes!


Next time, I argued I thought it best,
To give the conservative side a rest.
The merits of Glad-stone I freely pressed, When
Oh! what a surprise!
The chap I had met was a Tory true,
Nothing the Liberals right could do,
This was my share of that argument too,
Two lovely black eyes!


The moral you’ve caught I can hardly doubt
Never on politics rave and shout,
Leave it to others to fight it out, if
You would be wise
Better, far better, it is to let,
Lib’rals and Tories alone, you bet,
Unless you’re willing and anxious to get,
Two lovely black eyes!


CHORUS:
Two lovely black eyes!
Oh! what a surprise!
Only for telling a man he was wrong,
Two lovely black eyes!

Escotismo, História da Educação e Memória

Dessa vez, apresentaremos mais um texto brilhante do Jaguatirica Jorge Carvalho do Nascimento.

Prof. Jorge Nascimento é Doutor em História pela Universidade Federal de Sergipe e autor do maravilhoso livro “A Escola de Baden-Powell”. Além de incansável pesquisador, também é um autor aclamado. Seu mais recente sucesso, “Julho”, já está na sua segunda edição. É autor também de “A Cultura Ocultada”, além de vários outros trabalhos publicados na Internet, como esse, que apresentaremos agora, que foi uma proposta para o blog da Patrulha, antes publicado em outro canal, em 27 de junho de 2007.

Boa leitura a todos!


O movimento escoteiro é uma forma de associação voluntária[1], uma organização não-governamental internacional. Os principais estudos sobre o Escotismo publicados no Brasil por pesquisadores ligados ao campo da História da Educação, contudo, costumam analisar o Escotismo apenas a partir de alguns aspectos sob os quais o projeto de Baden-Powell foi apropriado no país, reduzindo-o a uma proposta político-ideológica de construção da nacionalidade. Assim, o Escotismo é visto como mero movimento de militarização da infância, prática de natureza patriótica, cívico-militar presente na escola primária no início do século XX, ao lado da ginástica e dos exercícios militares. O projeto de Baden-Powell foi reduzido, muitas vezes, no Brasil, ao conjunto de práticas do Escotismo escolar dominantes nas décadas de 10 e 20 do século passado e identificado como movimento militarista nacionalista na Educação brasileira.

Em algumas ocasiões, para o pesquisador de História da Educação, analisar práticas de Educação extraescolar como o Escotismo é, em certa medida, ainda deparar-se com aquilo que pode causar alguma estranheza. Não obstante, contactar com aquilo que não é usualmente objeto de estudo do campo facilita observar as semelhanças e diferenças em face das possibilidades de compreender os objetos convencionais de estudo da área, mostrando características universais e particulares. Diante de objetos como o Escotismo, é necessário que o historiador da Educação seja capaz de resistir às tentações do julgamento do passado e tente extrair dele apenas os sentidos que originalmente ali estavam postos, compreendendo as prerrogativas que são próprias à escola como agência educativa e aquelas que estão em outros espaços, outras agências de Educação organizadas pelas práticas da vida social.

Como a escola, o movimento escoteiro é um lugar de memória. Tal como afirma Maria Cecília Cortez Christiano de Souza acerca da instituição escolar, é possível dizer também quanto ao Escotismo: “Quando o olhar pode atravessar a espessura do tempo, distingue vestígios reconhecíveis de sua história”[2].

Para entender aquilo que o lord Baden-Powell propôs e colocou em prática é fundamental que se compreenda a sua maneira de pensar, captar as diferenças da sua proposta em face do que tal projeto pretendia ser, observando as recomendações metodológicas formuladas por Robert Darnton, quanto a arbitrariedade utilizada para classificar os objetos de estudo: “Ordenamos o mundo de acordo com categorias que consideramos evidentes simplesmente porque estão estabelecidas. Ocupam um espaço epistemológico anterior ao pensamento e, assim, têm um extraordinário poder de resistência. Postos diante de uma maneira estranha de organizar a experiência, no entanto, sentimos a fragilidade de nossas próprias categorias e tudo ameaça desfazer-se. As coisas se mantêm organizadas apenas porque podem ser encaixadas num esquema classificatório que permanece inconteste”[3].

É possível captar as práticas do Escotismo, com o auxílio de categorias como práticas e representações, difundidas no campo da História da Educação principalmente por Roger Chartier, bem como em face das contribuições que se pode extrair de categorias de análise como táticas e estratégias, defendidas por Michel de Certeau. Para este último, é importante explicitar o processo de produção do discurso historiográfico, o modo através do qual os fatos são tornados inteligíveis, os sentidos que são dados aos registros documentais, a narrativa e a interpretação. É necessário confrontar constantemente teoria e empiria, de modo a reinventar os conceitos, considerando não apenas as certezas teóricas, mas também aquilo que revelam os registros documentais.

Portanto, é fundamental inventariar as práticas do movimento escoteiro, compreendendo ser este um importante objeto da História da Educação, buscando a sua etnografia, as suas evocações, a sedução produzida por este movimento na memória daqueles que foram escoteiros e escotistas. Sedução que se expressou nas suas práticas de normalização social e nas representações que se fez de tais práticas. Participar do movimento escoteiro era assim, participar do universo de uma nova cultura, uma cultura que oferecia uma visão de mundo articulada em torno de uma proposta de autoformarão, que produzia forte impacto nas emoções, nas paixões, na paisagem natural, na paisagem urbana, nos processos de aprendizagem da vida, nas experiências de contato com a natureza, na produção de uma identidade cidadã.


NOTAS

[1] As associações voluntárias são também conhecidas como associações livres ou sociedades de ideias. Esse modelo associativo começou a se constituir entre os ingleses a partir do século XVII. Todavia, foi na América do Norte que o modelo mais se desenvolveu. “Os ingleses dos Estados Unidos encontraram-se (…), desde o início, divididos num grande número de pequenas sociedades distintas que não se prendiam a nenhum centro comum, e foi necessário que cada uma dessas pequenas sociedades cuidasse de seus próprios negócios, visto que não se percebia em parte alguma uma autoridade central que devesse naturalmente e pudesse facilmente se encarregar deles”. Cf. TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Livro I. Leis e costumes. 1a. ed. 2a. tiragem. São Paulo, Martins Fontes, 2001. p. 456.

[2] Cf. SOUZA, Maria Cecília Cortez Christiano de. Escola e memória. Bragança Paulista/SP: IFAN-CDAPH/Editora da Universidade São Francisco, 2000. p. 7.

[3] Cf. DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos e outros episódios da História Cultural francesa. Tradução de Sônia Coutinho. Rio de Janeiro, Graal, 1986. p. 248.

A Insígnia de Madeira em seus Vários Graus e Utilização no Movimento Escoteiro nas Diversas Seções

Voltamos hoje a mais um trecho do livro “Tradições Escoteiras — O Parque de Gilwell e a Insígnia de Madeira” do Jaguatirica Moacir Starosta.

Aproveitamos para manifestar nosso imenso alívio dele ter sobrevivido à covid-19. Muita saúde pra você, Moacir!


Para o Ramo Lobinho, B-P teria utilizado por um breve período, primeiramente, unhas de lobo e após dentes de lobo, nos anos de 1921 e 1923, costume logo abandonado por ser considerado ecológico incorreto.

Entre os anos de 1923 e 1925, uma pequena esfera de madeira teria sido utilizada acima do nó, com três cores: amarelo, verde e vermelho, de acordo com o ramo que o escotista pertencesse.

Além destes costumes, que não prosperaram, surgiu um que perdura até os dias de hoje, que seria a quarta e a terceira conta do colar, sendo a quarta conta conferida aos Deputados de Campo e aos Akelas Lideres (termos em desuso), atualmente Diretores de Cursos da Insígnia de Madeira. Aos Assistentes Lideres de Treinamento (termo também em desuso), atuais Diretores de Curso Intermediário, era concedida a terceira conta.

Cabe ressaltar, que uma das contas concedidas era original do colar de Dinizulu aos integrantes dos primeiros cargos após sua instituição.

Existiu uma pessoa que poderia utilizar cinco contas, seu nome era William Hillcourt, mais conhecido por “Green Bar Bill” em alusão à insígnia dos monitores de patrulha da Boy Scouts of America, associação escoteira dos Estados Unidos, a qual foi a pessoa que introduziu o esquema de formação de escotistas em nível avançado (Curso da Insígnia de Madeira) nos Estados Unidos e, trabalhou arduamente pelo desenvolvimento da formação de adultos fora de Gilwell, publicando inúmeros livros.

Em reconhecimentos por seus valiosos serviços prestados a formação de adultos, foi entregue a ele, em Gilwell em 1969, uma quinta conta retirada do colar original de Dinizulu, costume que desapareceu com sua morte.

Faleceu em 10 de novembro de 1992, aos 92 anos, três meses e três dias.

Os Lobinhos

A presente leitura foi extraída do hebdomadário infantil “Tico-Tico”, no seu número 862 de 19 de abril de 1922. Essa revista publicou em alguns números páginas destinadas ao Movimento Escoteiro, assinadas pelo Velho Lobo, o pseudônimo do querido Benjamin Sodré. O presente número foi o décimo-sexto texto sobre o Movimento Escoteiro sobre esse informativo, que saía em todas as quartas-feiras.

Como devem todos saber, Benjamin Sodré foi um oficial da Marinha de Guerra que chegou ao Almirantado, defendia a prática esportiva como impulsionadora da Educação, foi jogador do Botafogo FR e fundador da União dos Escoteiros do Brasil. É o patrono da cadeira número 21 da Patrulha Jaguatirica, atualmente ocupada por Antônio Boulanger Uchoa Ribeiro.

Na época do texto, o Escotismo estava dando os primeiros passos no Brasil. Tinha, em nosso território, apenas 12 anos de idade. A literatura era mínima e duas associações irmanadas eram os principais representantes conhecidos do Movimento: a A. B. E., Associação Brasileira de Escoteiros, e a A. E. C. B., Associação de Escoteiros Católicos do Brasil. Isso, antes da fundação da União dos Escoteiros do Brasil, em 4 de novembro de 1924.

O Rio de Janeiro era, então, a Capital do Brasil e o texto foi convertido da antiga ortografia etimológica para a atual.

O que mostramos aqui não é para que julguemos a forma que a educação, os movimentos educacionais, as escolas e as publicações infantis eram conduzidas na época. Tanto que no mesmo número desse “Tico-Tico”, encontramos a seguinte gravura que hoje, com os conceitos aprendidos com o tempo, arrepiariam todos os pais e educadoras, como vemos abaixo:

Portanto, o que temos aqui é de uma época bastante diferente da de hoje. Estamos tratando de um Escotismo de 100 anos atrás!

Boa leitura!


Lembram-se os camaradinhas de que na nossa conversa passada falamos, entre outras coisas, sobre a promessa dos lobinhos, a lei da alcateia, o sinal secreto e a saudação.

Para fazer parte de uma alcateia devem os recrutas prestar a promessa; mas antes são submetidos a um exame no qual demonstram conhecer perfeitamente aqueles assuntos, explicando a sua significação e mais a linha do lobinho, sobre o que falaremos adiante.

A promessa do lobinho é feita numa cerimônia correspondente à do juramento dos escoteiros.

A alcateia forma toda no círculo de parada e os recrutas que vão prestar a promessa formam em linha, no interior do círculo, em frente do instrutor.

Devem estar descobertos, os casquetes aos pés do chefe.

Ele chama-os, um a um, e trava com eles o seguinte diálogo:

— Conhece a lei da alcateia, o sinal secreto e a saudação?

— Sim senhor, conheço-os.

— Qual é a lei?

— Um lobinho ouve e obedece sempre e sempre aos velhos lobos.

— Está disposto a fazer a solene promessa do lobinho?

— Sim senhor. Prometo esforçar-me o mais possível para: 1º – ser leal a Deus, à Pátria e à lei da alcateia; 2º – prestar todos os dias um pequeno serviço a alguém.

(Enquanto faz essa promessa, está em posição de atenção e em saudação).

— Confio em você. Você cumprirá sua promessa. É um lobinho e faz de hoje em diante parte da grande família dos escoteiros.

Dá-lhe a insígnia do bando, põe-lhe o casquete na cabeça e aperta-lhe a mão esquerda. O lobinho passa a insígnia da mão direita para a esquerda e saúda com a direita o chefe. Depois, faz meia volta e saúda a alcateia. Fica um momento firme, enquanto a alcateia lhe corresponde a saudação, desejando-lhe boas-vindas.

Depois, reúne-se ao seu bando. A cerimônia termina pelo urro dos lobinhos.

— — —

Depois da promessa, o recruta, que passou a ser um lobinho, usa o uniforme e faz parte de um dos bandos que constituem a alcateia.

Um bando compõe-se de seis lobinhos dirigidos por um lobo, ao qual todos devem obedecer.

Cada bando distingue por uma cor e cada lobinho tem no ombro um triângulo de pano da cor do bando a que pertence.

As estrelas

O lobinho depois da admissão chama-se um “pata-tenra”. É como os lobinhos das selvas, inexperientes e cujas patas não estão ainda endurecidas; por isso, se ferem, se magoam e cada tropeço é um difícil empecilho que lhe tolhe os passos. Com o tempo e as lições dos velhos lobos, vão adquirindo a experiência e a esperteza necessárias à vida.

Também os nossos lobinhos continuam a trabalhar para merecer a 1ª e a 2ª estrelas, que são distintivos de sua especialidade.

Para obter a 1ª estrela, deve o pata-tenra satisfazer as seguintes provas:

  1. conhecer a composição da bandeira e saber içá-la;
  2. saber fazer as voltas (nós) mais usuais;
  3. fazer dois exercícios físicos (duas posições de sueca);
  4. saber os cuidados a ter com as mãos, as unhas, os dentes, os cabelos e a sua razão de ser;
  5. saber dar uma cambalhota, saltar carniça, rodar um arco e pular num pé só;
  6. ter pelo menos três meses de serviço como lobinho.

Satisfeitas essas provas, ele deixa de ser pata-tenra.

Para conseguir a 2ª estrela, é necessário saber:

  1. transmitir sinais; conhecer o alfabeto de semáforas ou o alfabeto Morse;
  2. conhecer oito pontos da bússola;
  3. saber recitar a primeira parte do Hino Nacional;
  4. fazer um modelo de barro ou papelão; confeccionar ou desenhar bandeiras;
  5. preparar e acender uma fogueira; transmitir uma mensagem verbal;
  6. fazer alguns exercícios corporais, os golpes mais elementares do box; remar, receber uma bola com a mão direita e com a esquerda;
  7. ser possuidor de uma caderneta da Caixa Econômica;
  8. saber pensar um dedo ferido;
  9. ter pelo menos seis meses de serviço como lobinho.

Para um menino esperto, isso pouco é, e, com pequeno esforço, qualquer criança obtém as duas estrelas.

— — —

Quando vocês ouvem dizer de alguém que é um sujeito de linha, compreendem logo que é um indivíduo que anda com suas roupas sempre alinhadas e limpas, que não se permite atitudes desleixadas e preguiçosas, mas anda, ao contrário, sempre direito, sem corcunda.

Da mesma forma, um lobinho.

Um lobinho que ande com suas roupas sujas, desalinhadas, meias caídas, casquete de banda, cabelos crescidos, corcunda, mole, é um lobinho sem linha. E os lobinhos devem andar sempre numa linha correta, e para isso estão sempre alertas para não relaxar.

Insígnias de capacidade

Como os escoteiros, que se especializam num assunto para o qual sentem que têm mais habilidade e obtém os distintivos de especialidade, assim também os lobinhos, depois de terem obtido as duas estrelas, podem aspirar as insígnias de capacidade.

Essas são divididas em quatro grupos:

I – Inteligência (insígnias azuis);

II – Habilidade manual (insígnias amarelas);

III – Serviços para outrem (insígnias vermelhas);

IV – Saúde física (insígnias verdes).

Essas insígnias são conferidas após haver o lobinho prestado um exame de capacidade, de acordo com as exigências abaixo discriminadas.

PRIMEIRO GRUPO

Antes de ser conferida qualquer das insígnias deste grupo, os lobinhos devem prestar a seguinte promessa:

“Hei de esforçar-me o mais possível para continuar a exercitar-me (ou colecionar, ou observar) depois de haver ganho a minha insígnia.”

Sinaleiro — Conhecer perfeitamente o alfabeto Morse e o de semáforas; conhecer os sinais especiais mais comuns; saber ler e expedir, lenta mas corretamente, palavras simples, num e noutro alfabeto; ter conhecimento prático dos sinais de campo, de fumo, acústicos, sinais por movimento dos braços ou do bastão e sinais de escoteiros.

Colecionador — Fazer uma coleção de selos ou de espécimens botânicos ou geológicos, de cartões postais, de sinetes, de obliterações postais, etc., arranjada conveniente e sistematicamente e etiquetadas com inteligência.

Observador — Conhecer alguma cousa sobre a história e hábitos de cinco animais selvagens da região, mamíferos ou aves; ou conhecer os nomes e o aspecto de vinte flores ou árvores da região; saber, das plantas comuns, quais as venenosas para os animais e os homens. Saber seguir uma pista, orientando-se por pontos de referência, pela bússola ou por sinais deixados no chão; jogo de Kim.

Promessa especial que se deve exigir do observador, antes de entregar-lhe a insígnia:

“Prometo prestar serviços tanto aos animais como aos homens.”

SEGUNDO GRUPO

Antes de receber uma insígnia desse grupo, um lobinho deve fazer a seguinte promessa:

“Se não conseguir logo resultado em qualquer trabalho que esteja a executar, hei de perseverar nas tentativas, até o conseguir.”

Tecelão — Fazer um cachecol de lã em ponto tricô; tecer um saco ou uma rede com barbante, tecer, com ráfia, um objeto útil; fazer um cesto ou paneiro; pôr um remendo e pregar botões numa roupa.

Artista — Copiar a pena ou a lápis um desenho representado um homem, um animal ou um objeto qualquer; desenhar no natural uma paisagem ou um objeto. Modelar em barro, em tabatinga ou em cera uma cara de homem, um animal ou um pássaro que o examinador possa reconhecer. Esculpir sobre madeira pequenos trabalhos.

Para o lobinho obter essa insígnia, não precisa satisfazer a todas as provas, mas apenas a de pintura, as de modelagem ou as de escultura.

Marceneiro — Conhecer o manejo das ferramentas e saber usá-las. Fazer os artigos seguintes: um tamborete, uma pequena mesa, uma estante de livros.

TERCEIRO GRUPO

Antes de poder obter uma insígnia do terceiro grupo, um lobinho deve fazer a promessa seguinte:

“Farei todo o possível para ajudar os outros antes de pensar em mim.”

Enfermeiro — Saber pensar uma mão de sorte a estancar uma hemorragia o mais assepticamente possível; saber limpar e tratar uma esfoladura; conhecer o tratamento das luxações; saber aplicar um penso numa clavícula ofendida; saber colocar um braço na tipoia e passar um penso na cabeça; conhecer o tratamento para fazer estancar sangue do nariz; saber abafar o fogo de uma vestimenta e tratar queimaduras ligeiras, poeira nos olhos; precauções a tomar contra as insolações e seu tratamento.

Trabalhos domésticos — Limpar uma grelha; preparar o fogo e acendê-lo sem gastar mais de dois fósforos; fazer chá, cozinhar um ovo; descascar batatas e cozinhá-las; saber cozinhar legumes; engraxar um par de sapatos; fazer uma cama; lavar a louça; limpar janelas, facas, objetos de cobre, etc..

Guia — Saber os caminhos que levam à cidade ou vila mais próxima e conhecer a sua distância; direção e distância de três cidades ou lugarejos vizinhos da sua. Saber dar, a um estranho que pergunte, o caminho, indicações precisas, explícitas, feitas com presteza e polidez. Conhecer os arredores, a distância do posto policial, de bombeiros, do médico, do farmacêutico, do hospital, do vigário ou pastor, do ferreiro, da garagem ou cocheira, e do hotel mais próximo. Saber os nomes e as situações das melhores casas comerciais de diferentes gêneros; conhecer as ruas e travessas, ou as picadas e atalhos, num raio de 500 metros da sede da alcateia; saber estimar aproximadamente distâncias (de modo a poder dar indicações a quem as pedir); conhecer a história do seu município e os monumentos e sítios históricos das redondezas.

QUARTO GRUPO

Antes de receber qualquer insígnia desse grupo, o lobinho deve fazer a seguinte promessa:

“Hei de esforçar-me para ter sempre limpos meu corpo e meus pensamentos, para ser correto nos jogos e dominar-me.”

Nadador — Nadar vinte metros e boiar durante um minuto; ser capaz de descalçar n’água um par de meias ou, como variante, saber nadar de costas 15 metros, tendo os braços cruzados sobre o peito; saber mergulhar quando nadando ou atirando-se de uma prancha, borda de uma embarcação ou qualquer elevação sobre o mar.

Ginástica — As provas são divididas em duas séries A e B. A série A para os lobinhos de 8 a 10 anos; a série B para os de 10 a 12. As provas são do mesmo gênero nas duas séries, mas exigindo esforços diferentes.

Provas da série A — Um lobinho deve ser capaz de correr 200 metros em 50 segundos; correr 100 metros em 20 segundos; saltar, em altura, 80 cm; saltar, em comprimento, 1,60 m; subir em uma vara ou corda de 3 m; lançar uma bola de tênis a 20 m e apanhar uma bola lançada de 15 metros. Conhecer os exercícios de sueca suficientes para movimentarem todos os membros do corpo; ter conhecimento dos principais golpes de box; saber lutar corretamente.

Provas da série B — Correr 200 metros em 47 segundos; correr 100 metros em menos de 19 segundos; saltar, em altura, 90 centímetros; saltar, em distância, 2,10 m; subir em uma corda ou vara de 3 m; lançar uma bola de tênis a 35 m e apanhar uma bola lançada de 22 m. Conhecer os exercícios de sueca suficientes para movimentarem todos os membros do corpo; conhecer os principais golpes do box e suas defesas; saber lutar corretamente.

Equipier (componente de equipe ou time) — Para obter essa insígnia, o lobinho deve ter feito parte de um time durante três meses, tomando parte em todos os matches. Deve ser um bom jogador e escrupulosamente correto. Não deve ter sido nunca tirado de campo por incorreção ou disputa. Uma estrita obediência às regras do jogo, bom humor, audácia e jogo impessoal valem tanto quanto a destreza e habilidade. (Um lobinho deve, quando perdendo, se habituar a aplaudir os vencedores).

VELHO LOBO

Pioneirismo

O texto a seguir é do Jaguatirica Celso Correia Neves, famoso pelas suas “Efemérides Escoteiras”, encontrada em https://www.efemeridesescoteiras.com.br/.

Fala do início do Ramo Pioneiro, que, no original, recebeu o nome de Rover Scout. Como, no Brasil, de início, houve dificuldades de se encontrar uma expressão que bem o traduzisse, já se tendo tentado “Explorador” ou mesmo assumindo o original “Rover”, até se assumir o termo “Pioneiro”, de ampla aceitação nos dias atuais.

O padroeiro desse maravilhoso ramo é São Paulo. O apóstolo de Cristo que relatou suas viagens na Bíblia.

Boa Leitura!




PIONEIRISMO

29/06 – Dia de São Paulo e São Pedro

29/06 – Dia do Pioneiro

O Lobismo resolveu o problema dos garotos menores de 11 anos que queriam ser escoteiros. Agora o problema é como manter os rapazes maiores, o que foi mais complicado. Vamos brevemente à origem e desenvolvimento deste ramo.

Em novembro de 1913, Baden-Powell escreveu o seguinte na “Headquarters Gazette”:

Por longo tempo, tem sido um desejo por parte de todo o movimento que se crie um meio de manter os ex-escoteiros em contato com o movimento e sob sua saudável influência. Creio que encontramos um meio para este fim sob a forma de uma sociedade amiga e segura. Todo jovem, ao chegar aos 16 anos, por força de lei, deve ingressar em uma sociedade reconhecida desta natureza. Assim pois, por que não ingressar na sociedade amiga dos escoteiros em vez de qualquer outra? Espalhar suas sucursais em todo o país, e ele poderá por tanto pedir translado de uma sucursal a outra, se sua carreira o leva a distantes partes do país.

Se pensa que os membros preferem estar unidos sob uma promessa similar a dos escoteiros com a finalidade de ser útil aos demais. Com este objetivo alguma cerimônia se criara para o ingresso no ramo de escoteiros Maiores.

Tenho recebido muitas solicitações de adultos perguntando se há alguma forma de ingressar no escotismo para levar adiante seus ideais. Minha resposta é que o podem fazer, se tornando um chefe escoteiro, porem creio que esta sociedade atrairia muito deles.

Os objetivos da sociedade “Amiga dos Escoteiros”, que acabou organizada em janeiro de 1914, eram, segundo a minuta de B-P.

1) Manter os escoteiros em contato consigo mesmo e com o movimento, quando tiver que deixar a tropa e sair a batalha pelo mundo.

2) Conservar os ideais de boa cidadania que lhe foi ensinado como escoteiro.

3) Atrair ao movimento jovens que não foram escoteiros e dar-lhes a oportunidade de fazer um serviço ao seu país.

Se não fosse o aspecto desolador da 1ª Guerra Mundial, que iniciou poucos meses depois, é possível que este ramo tivesse desenvolvido da forma que B-P tanto desejava.

O problema ficou suspenso até junho de 1917, data em que B-P publicou um elaborado esquema de “Escoteiros Maiores”. A proposta geral era fornecer ao jovem de 15 anos em diante atividades especiais, com o objetivo de ajudá-lo na formação de sua careira. Este esquema fracassou totalmente. O termo Escoteiros Maiores caiu em desuso e cedeu lugar a Rover Scout, que apareceu no ano seguinte em 1918.

O pioneiro do ramo ROVER foi o Coronel Ulick Burgh, primeiro subcomissário e chefe, um dos maiores e mais sinceros escoteiros que o movimento teve. Sua morte prematura em novembro de 1921 foi uma perda irreparável para este novo Ramo.

Vejamos a opinião pessoal de B-P em 1918 sobre a necessidade e método do Roverismo.

Meu sentimento pessoal é que a etapa Rover é o terceiro passo progressivo na educação do escoteiro. E sua importância é que completa sua educação e também o mantém sob as boas influencias e em boas companhias durante um período crítico de sua vida.

Porém, não se pode manter, sem dar-lhes certos objetivos e atividades definidas… Assim é que lhes oferecemos serviço. Sua vida prévia no escotismo, tanto como lobinho e como escoteiro, foi uma preparação para ele.

Portanto, “SERVIÇO” deve incluir três passos progressivos.

1) Serviço a si mesmo. Isto é:

a) Preparar-se para uma carreira para que não seja uma carga para sua família.

b) Desenvolver sua saúde mediante atividades ao ar livre, acampamentos excursões etc…

c) Colaborar energicamente em seu trabalho, com sua contribuição ao bem estar nacional.

2) Serviço ao movimento escoteiro.

Neste sentido, os Rovers podem ajudar muito e em diferentes graus, e de acordo com sua capacidade e interesse; portanto, devem ser nossa principal fonte de abastecimento de chefes.

3) Serviço à comunidade.

Isto da base para que o Rover estude “civismo”, e este é o passo final para convertê-lo em um bom cidadão.

A prestação de serviço de qualquer tipo é o método escoteiro de aplicar sua promessa a Deus. Sou contra converter o Ramo Rover em uma forma de movimento religioso, pois assim terá afastado os espíritos indomáveis, e estes são os jovens que queremos manter na linha.

Se jovens de fora, isto é, não escoteiros, desejam ingressar como Rovers, atraídos pela boa companhia os objetivos e o Serviço, tanto melhor.

Com a fundação deste ramo em 1918, surgiu a necessidade de um manual para Rovers, comparável ao “Escotismo para Rapazes” e o “Manual do Lobinho”. A princípio, este caminho não era claro para B-P. E queria que o novo ramo fosse elástico e não atado por regras e regulamentos, e tão pouco podia ter, em sua opinião nenhum esquema forte e rápido de adestramento prático. Em uma das primeiras conferências de chefes de clã, B-P lhes enviou os seguintes 6 pontos que eram o que na sua opinião deveriam orientar o ramo Rover.

1) Que os Rovers são escoteiros e que o espírito escoteiro e a atmosfera do ar livre são essenciais.

2) Que o serviço não seja alheio à vida cotidiana e de trabalho do Rover. O progresso em sua profissão é parte de seu serviço comunitário.

3) O Roverismo é parcialmente uma preparação para a vida e também uma ocupação para toda a vida.

4) Que permaneça a característica do caráter, que é extremamente rara e valiosa, portanto, necessária para a juventude de hoje. Esta característica pode ser desenvolvida no Roverismo.

5) Que, ao formular qualquer regra ou esquema para o Roverismo, que seja elástico. Olhem longe e exponha com amplitude, pois será de aplicação não só em Londres como também em nossos domínios de ultramar e nos países estrangeiros, os quais todos olham para nós como guia e exemplo.

6) Que a intenção do Roverismo não é fazer de um homem um pedante satisfeito consigo mesmo ou um santo melancólico, e sim a ajudá-lo a dirigir sua alegre e jovem energia em direção a caminhos que lhes trarão maior felicidade, visando uma vida que valha a pena por seus serviços ao próximo.

Quanto ao referido manual por fim apareceu em 1922, sob o título de Rovering to Succes. Resultou em um livro de conselhos e guia para os muitos problemas que confrontam os jovens, e, portanto, com muito êxito, também fora do movimento escoteiro.

Podemos então definir o Roverismo como sendo uma irmandade de serviço e do ar livre cujos propósitos são:

a) Continuar o adestramento em boa cidadania dada aos Lobinhos e aos Escoteiros.

b) Incentivar os Rovers para que desempenhem ocupações úteis a eles mesmos e para que prestem serviço a sua comunidade. O Roverismo compreende um período da vida durante a qual o jovem está “encontrando a si mesmo”, isto é, desenvolvendo seu caráter e suas faculdades, e procurar ajudá-lo a pôr em prática, em um mundo maior, os princípios da Promessa e da Lei Escoteira.